
Pesquisas Datafolha, AtlasIntel, Genial/Quaest e Escutas Sociais indicam queda do apoio à medida que a sociedade compreende melhor os impactos e os custos da proposta
O apoio popular à proibição da escala 6×1 vem perdendo força nas últimas semanas, segundo diferentes medições de opinião pública. Dados do Datafolha, da AtlasIntel, da Genial/Quaest e da Escuta Social da Abrasel indicam que esse apoio vem diminuindo à medida que o debate amadurece e a população passa a conhecer melhor seus impactos econômicos, seus custos e o risco de piora dos serviços essenciais.
Em março de 2026, a Escuta Social da Abrasel registrava 73% de manifestações favoráveis ao fim da escala 6×1 nas redes sociais. No mesmo período, o Datafolha apontava 71% de apoio à proposta. Já em 26 de abril, o indicador da Escuta Social caiu para 66%, sinalizando uma mudança relevante de percepção em poucas semanas. Em 30 de abril, levantamento da AtlasIntel mostrou um patamar ainda mais baixo, com 59,4% de favoráveis.
No início de maio, houve uma oscilação pontual. Em 1º de maio, a Escuta Social indicou 67% de apoio, mas a tendência de queda voltou a aparecer na sequência. Em 8 de maio, o Datafolha registrou recuo para 64% As perguntas das duas pesquisas do Datafolha não eram exatamente iguais, pois em maio a pergunta sobre o apoio era precedida por uma pergunta sobre o nível de conhecimento do assunto, mas as duas avaliaram o suporte à proibição. O percentual de 64% se repetiu no dia 9 de maio na Escuta Social da Abrasel. No levantamento da Genial/Quaest, o apoio, que era de 72% em dezembro, caiu para 68% em maio. O conjunto dos dados revela um desgaste gradual do apoio popular à proposta nos levantamentos mais recentes que permitem comparação temporal.
O resultado é ainda mais relevante porque ocorre logo após uma forte ofensiva de comunicação do governo em defesa da proposta, com veiculação em cinema, televisão, rádio, meios digitais e participação direta do presidente da República. Diversos partidos de esquerda embarcaram no movimento, inclusive organizando manifestações com suas militâncias em algumas capitais. Mesmo com esse esforço institucional de grande alcance, os levantamentos indicam que a queda do apoio da população foi freada por apenas alguns dias. A Escuta Social da Abrasel já aponta que a tendência de recuo segue, de forma ainda mais acelerada, no ambiente digital.
Para a Abrasel, esse movimento mostra que a sociedade não está simplesmente rejeitando o debate sobre qualidade de vida, mas passando a fazer uma pergunta mais concreta: quem paga essa conta e como os serviços vão funcionar? À medida que os custos, os impactos nos preços, o risco de redução de horários, a ameaça aos serviços essenciais e a ausência de paralelo internacional entram no debate, o apoio automático à proibição da escala 6×1 perde força.
A Escuta Social da Abrasel é um sistema de medição contínua que acompanha a evolução da opinião pública a partir da análise de publicações e comentários em mídias sociais, como YouTube, Facebook, Instagram, X e TikTok, além de conteúdos publicados em grandes veículos jornalísticos e sites de opinião. O indicador funciona como um termômetro do debate público e permite identificar mudanças de percepção conforme novas informações passam a circular.
Mesmo diante dessa tendência, o Congresso Nacional tem acelerado a tramitação de projetos que tratam da proibição da escala 6×1. Para o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, há um claro descompasso entre o ritmo do Legislativo e o amadurecimento da discussão na sociedade.
“Mesmo depois de uma campanha oficial pesada, com televisão, cinema, rádio, internet e o próprio presidente da República defendendo a proposta, o apoio não voltou a crescer de forma consistente. Vários líderes e representantes do governo esperavam que com a campanha a aprovação ultrapassasse os 80%.
E agora vemos o contrário. A escuta social já mostra que o recuo continua. Isso revela que, quando a população entende os custos, os impactos nos serviços e o fato de que nenhum país do mundo adotou esse tipo de proibição, o apoio emocional começa a derreter. A pressa pela eleição não pode ignorar os interesses e a vida do brasileiro”, afirma Paulo Solmucci.
A Abrasel também chama atenção para uma confusão recorrente no debate público entre escala de trabalho e jornada de trabalho. A escala diz respeito à forma de distribuição dos dias trabalhados e de descanso ao longo da semana, enquanto a jornada trata do número de horas trabalhadas. Para a entidade, discutir redução de jornada pode ser legítimo, desde que com base em produtividade, negociação e realidade setorial. O problema é proibir por lei uma escala específica de trabalho, criando uma regra rígida para setores, empresas e regiões com realidades muito diferentes.
Segundo a Abrasel, a proibição da escala 6×1 traria impactos profundos para os setores essenciais, especialmente na saúde, alimentação fora do lar, serviços públicos, atividades de manutenção urbana e transporte, o que impactaria a sociedade como um todo. A entidade argumenta que a medida aumenta significativamente os custos operacionais, pressiona preços, reduz a competitividade e ameaça empregos, sobretudo em pequenos e médios negócios.
Outro efeito apontado é o aumento do risco de informalidade. Com margens já apertadas, muitos pequenos e médios estabelecimentos poderiam ser forçados a reduzir equipes, cortar turnos, limitar horários de funcionamento ou recorrer a vínculos informais para manter as portas abertas. Além disso, a entidade destaca que uma regra única ignora a diversidade do mercado de trabalho brasileiro e enfraquece a negociação coletiva, que hoje permite soluções mais adequadas a cada setor e região. Para a Abrasel, discutir qualidade de vida, descanso e produtividade é legítimo e necessário. O que não faz sentido, segundo a entidade, é impor uma solução única, sem avaliar consequências econômicas e sociais, em um momento em que os próprios indicadores de opinião mostram que o apoio popular à proibição da escala 6×1 está em queda.









