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O silêncio de quem constrói e o silêncio de quem rasteja

Dennis Moraes 12 de setembro de 2026 9 minutes read
cobra falsa
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Por Dennis Moraes

  • SAFE GREEN - CERTIFICADO DIGITAL

Há algum tempo, tornou-se comum encontrar nas redes sociais frases sobre crescimento silencioso, evolução pessoal e a ideia de que quem realmente está trabalhando não precisa anunciar seus passos. Em princípio, é um discurso perfeitamente compreensível. Afinal, existe sabedoria em não transformar cada conquista em espetáculo e em compreender que trabalho sério, muitas vezes, acontece longe dos holofotes. O problema começa quando esse mesmo discurso passa a ser utilizado como uma espécie de blindagem moral por pessoas que, embora se apresentem como discretas e focadas no próprio caminho, dedicam uma parte considerável de sua energia a observar, provocar, desestabilizar e tentar prejudicar aqueles que estão ao redor.

É preciso fazer uma distinção que parece simples, mas que muita gente convenientemente prefere ignorar: existe uma enorme diferença entre crescer em silêncio e agir nas sombras. Quem está verdadeiramente concentrado em construir alguma coisa não precisa transformar a trajetória de outra pessoa em obstáculo para justificar a própria existência. Trabalha, aprende, erra, corrige, insiste e segue adiante. Já aquele que não consegue encontrar força suficiente para sustentar o próprio crescimento muitas vezes passa a enxergar o sucesso alheio como uma ameaça. E é justamente aí que começam as pequenas movimentações de bastidores que, isoladamente, podem parecer insignificantes, mas que, quando observadas em conjunto, revelam muito sobre quem está por trás delas.

Há pessoas que desenvolveram uma habilidade impressionante para construir uma imagem pública absolutamente diferente daquilo que praticam nos bastidores. Falam de humildade, pregam paz, citam evolução, defendem respeito e repetem que não estão preocupadas com a vida de ninguém. São discursos bonitos, fáceis de compartilhar e ainda mais fáceis de receber aplausos. Entretanto, caráter não é aquilo que alguém publica para que os outros vejam. Caráter aparece justamente quando não existe plateia, quando não há necessidade de manter uma reputação e quando uma determinada atitude pode ser tomada sem que ninguém descubra.

É nesse ponto que surgem os famosos “santos do pau oco”. Pessoas que aprenderam a administrar muito bem a própria imagem, mas que, longe dos olhos do público, revelam outra personalidade. Conseguem falar de cordialidade enquanto alimentam intrigas, defendem a paz enquanto provocam conflitos e se apresentam como vítimas depois de cuidadosamente criar a situação que levou ao conflito. Algumas chegam a transformar a própria capacidade de provocar em uma espécie de estratégia: cutucam, esperam a reação e, quando ela acontece, utilizam a reação do outro como prova de que eram elas as injustiçadas.

Essa é uma das formas mais sofisticadas de hipocrisia. Não se trata simplesmente de mentir. Trata-se de construir uma narrativa na qual a própria pessoa ocupa permanentemente o papel de vítima, enquanto aqueles que foram provocados acabam apresentados como agressivos, desequilibrados ou problemáticos. E como vivemos em uma época em que muitas pessoas conhecem apenas fragmentos das histórias, quem conta primeiro nem sempre é quem tem razão. Muitas vezes, é simplesmente quem teve mais habilidade para construir a versão que gostaria que os outros acreditassem.

Também existe uma diferença importante entre competição e inveja. Competir, no sentido saudável, significa querer fazer melhor, trabalhar mais, buscar excelência e conquistar seu próprio espaço. Inveja, por outro lado, começa quando a conquista do outro deixa de ser apenas uma referência e passa a ser tratada como algo que precisa ser impedido. Quem compete olha para frente. Quem inveja olha permanentemente para o lado. Quem trabalha para crescer pergunta a si mesmo o que pode fazer melhor. Quem vive incomodado com o crescimento alheio procura descobrir o que pode fazer para diminuir o outro.

E talvez seja justamente por isso que determinadas pessoas se incomodem tanto com quem simplesmente trabalha. O sujeito que constrói seu caminho honestamente é uma ameaça para quem depende da desqualificação dos outros para parecer maior. Afinal, quando alguém conquista espaço por competência, persistência e credibilidade, fica muito mais difícil explicar por que aquele espaço não poderia ser ocupado por qualquer outra pessoa. A realidade passa a exigir mérito. E mérito é algo que não pode ser fabricado com discurso.

Ao longo da vida, aprendi também que nem toda provocação merece resposta. Existe uma diferença entre ser covarde e escolher não participar de determinadas disputas. Muitas vezes, responder significa exatamente entregar ao provocador aquilo que ele estava procurando: atenção, desgaste e a oportunidade de inverter os papéis. Há pessoas que provocam justamente para obter uma reação. Quando a reação vem, elas abandonam a provocação original e passam a explorar apenas a resposta, como se o episódio tivesse começado naquele momento.

Por isso, o silêncio também precisa ser interpretado com cuidado. O silêncio de quem trabalha é uma coisa. O silêncio de quem observa, calcula e age pelas sombras é outra. O primeiro nasce da concentração. O segundo pode nascer da estratégia. O primeiro constrói. O segundo, muitas vezes, espera uma oportunidade para destruir.

E eu conheço algumas dessas cobras.

Não é necessário citar nomes. Não é necessário transformar este artigo em uma lista de acusações ou em um tribunal particular. Quem conhece determinadas situações saberá perfeitamente do que estou falando. Quem não conhece pode simplesmente entender como uma reflexão sobre comportamento humano. Mas existe uma coisa que considero importante registrar: não subestime a capacidade de observação de quem decidiu não reagir imediatamente.

Nem todo mundo que permanece calado está alheio ao que acontece. Às vezes, a pessoa percebe a provocação, identifica a intenção, entende a movimentação e simplesmente decide não entrar naquele jogo. Isso não significa ingenuidade. Pelo contrário. Em determinadas situações, manter distância é uma demonstração muito maior de inteligência do que responder na mesma moeda.

Afinal, existe um preço para cada escolha. Quem passa a vida tentando prejudicar os outros precisa gastar energia acompanhando a vida dos outros. Precisa saber quem está crescendo, quem está chegando, quem está sendo reconhecido, quem está conquistando espaço e onde existe uma oportunidade para interferir. É uma existência curiosa: a pessoa diz estar concentrada no próprio crescimento, mas conhece detalhadamente os movimentos daqueles que afirma não observar.

Enquanto isso, quem realmente está construindo alguma coisa segue trabalhando.

Talvez essa seja a maior diferença entre os dois caminhos. Quem constrói não precisa destruir. Quem tem competência não precisa desqualificar. Quem possui credibilidade não precisa fabricar versões sobre os outros. Quem tem personalidade não precisa representar um personagem. E quem sabe exatamente o valor do próprio trabalho não precisa diminuir ninguém para se sentir maior.

No fim das contas, o tempo é um péssimo aliado para quem vive de aparência. Pode até demorar, mas ele revela contradições. A máscara pode funcionar durante meses ou anos; o discurso pode conquistar admiradores; a postura de pessoa humilde pode render elogios; a narrativa de vítima pode encontrar quem acredite nela. Mas chega um momento em que as próprias atitudes começam a contar uma história diferente daquela que foi cuidadosamente apresentada.

E quando isso acontece, não é necessário desmascarar ninguém. A própria pessoa se encarrega disso.

É por essa razão que não tenho pressa em responder determinadas atitudes. Algumas coisas merecem resposta; outras merecem apenas registro. O tempo tem uma capacidade extraordinária de colocar cada comportamento diante das suas consequências. Quem trabalha honestamente continuará trabalhando. Quem constrói relações verdadeiras continuará construindo. Quem conquista espaço pelo próprio esforço continuará encontrando caminhos. Já quem depende de intrigas, provocações e sabotagens precisará, cedo ou tarde, lidar com o fato de que nenhuma imagem consegue esconder para sempre aquilo que as atitudes insistem em revelar.

Então, quando alguém disser que está “crescendo no silêncio”, talvez seja interessante observar menos o que essa pessoa publica e mais aquilo que ela faz. Porque existe o silêncio de quem está construindo e existe o silêncio de quem está rastejando. Existe a discrição de quem não precisa provar nada e existe o anonimato conveniente de quem prefere agir longe dos olhos dos outros.

Eu continuo preferindo o primeiro.

Prefiro o trabalho que não precisa de anúncio diário. Prefiro a conquista que não depende da queda de ninguém. Prefiro disputar espaço com competência a tentar retirar o espaço de outra pessoa. Prefiro ser reconhecido pelo que faço do que ser elogiado por uma imagem cuidadosamente construída. E, principalmente, prefiro dormir sabendo que aquilo que conquistei não precisou ser acompanhado da destruição de ninguém.

Porque, no final, cada pessoa constrói a reputação que merece.

Alguns constroem com trabalho. Outros, com discurso.

Alguns conquistam espaço. Outros passam a vida tentando impedir que alguém conquiste.

E há aqueles que passam tanto tempo escondidos atrás de uma máscara de humildade que acabam acreditando no próprio personagem.

A esses, deixo apenas uma constatação: não é porque alguém não reage que não percebe. Não é porque alguém se cala que não sabe. E não é porque a cobra se escondeu no mato que ninguém viu por onde ela passou.

Quem realmente está crescendo não precisa apagar a luz de ninguém.

Dennis Moraes é Comendador outorgado pela Câmara Brasileira de Cultura, Jornalista e CEO do Grupo Dennis Moraes de Comunicação. Acesse: dennismoraes.com.br

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Tags: artigo de opinião caráter comportamento humano crescimento pessoal Dennis Moraes ética hipocrisia maturidade opinião reputação

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