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Larvas de ‘Aedes aegypti’ podem se alimentar de leveduras


A alimentação das larvas do mosquito Aedes aegypti está no foco de uma pesquisa liderada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Publicado na revista científica Plos One, o estudo mostra que elas podem se desenvolver a partir do consumo de leveduras Saccharomyces cerevisiae, que compõem os fermentos biológicos. A descoberta pode contribuir para a criação de insetos em laboratório, o que é importante para novas estratégias de controle do vetor. “As pesquisas sobre hábitos alimentares geralmente se concentram nas fêmeas adultas do A. aegypti, porque somente elas consomem sangue e podem transmitir vírus para as pessoas. Porém, com o desenvolvimento de métodos de combate a doenças baseados na liberação de mosquitos, a alimentação das larvas se tornou uma questão fundamental”, afirma Fernando Genta, pesquisador do Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos do IOC/Fiocruz e coordenador da pesquisa.

Primeira fase de vida dos mosquitos, as larvas nascem quando os ovos doA. aegypti eclodem após entrarem em contato com a água. Na natureza, elas se alimentam da matéria orgânica diluída na água ou presente no fundo dos recipientes onde nasceram. Muitas vezes, micro-organismos, como bactérias e fungos, estão entre as partículas ingeridas naturalmente. Quando atingem o peso necessário, as larvas se transformam em pupas. Por sua vez, as pupas não se alimentam, mas atravessam um processo de transformação, dando origem aos insetos adultos.

Potencial nutricional

A pesquisa recém-publicada confirmou que as larvas do A. aegypti são capazes de se desenvolver a partir de uma alimentação exclusiva com leveduras, chegando até a forma adulta. Na comparação com a ração de gato – um dos compostos comumente usados para alimentar larvas em laboratório –, a dieta com leveduras originou larvas e mosquitos machos adultos com aproximadamente o dobro do peso, o que indica uma vantagem nutricional. Em média, as larvas alimentadas com leveduras demoraram dois dias a mais para se transformarem em pupas. Segundo os pesquisadores, esse atraso pode ser considerado pequeno e não reflete, necessariamente, uma carência nutricional. “Algumas pesquisas apontam que as larvas podem atrasar a pupação quando se encontram em ambientes nutricionalmente ricos. Isso seria uma estratégia para adquirir reservas para a vida adulta”, pondera Raquel Santos Souza, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e primeira autora do artigo.

Os pesquisadores observaram que a dieta com S. cerevisiae contém aproximadamente 12 vezes mais proteínas e três vezes mais açúcares do que a ração de gato. Além disso, a solução com leveduras tem menor chance de contaminação. “Bactérias nocivas para as larvas podem se desenvolver na ração de gato, prejudicando a criação de mosquitos em laboratório. Por esse motivo, a ração de peixe é uma alternativa utilizada nas criações em larga escala, mas o preço é bastante alto. Embora mais estudos ainda sejam necessários, uma dieta desenvolvida a partir de leveduras ou utilizando estes micro-organismos como aditivo poderia ser vantajosa, por oferecer uma alimentação controlada e livre de contaminações”, avalia Genta.

Identificação inédita

O estudo demonstrou também que as larvas do A. aegypti possuem uma enzima capaz de romper a parede celular das leveduras, o que é importante para a capacidade de absorver nutrientes destes micro-organismos. De acordo com os pesquisadores, a enzima beta-1,3-glucanase já tinha sido encontrada em baratas, cupins, gafanhotos, besouros, larvas de mariposas e flebotomíneos. A detecção nas larvas de A. aegyptirepresenta a primeira identificação em mosquitos. “A presença dessa enzima com altos níveis de atividade indica que a alimentação a partir de fungos deve ocorrer na natureza”, comenta Genta. Uma vez que os seres humanos não possuem a enzima beta-1,3-glucanase, os autores consideram que ela poderia ser um alvo interessante para o desenvolvimento de inibidores com o objetivo de combater as larvas do A. aegypti.

 

 

Agência Fiocruz

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Dennis Moraes