Jabutis podem estar mais ameaçados do que se imagina

Pesquisa é realizada na Unesp de São José do Rio Preto
[25/02/2015]

Tiago Lucena da Silva defendeu na Unesp de São José do Rio Preto a tese de doutorado “Análise morfológica e filogeográfica em jabutis brasileiros (Testudines). A pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal

O estudo avaliou dados sobre: biogeografia, vocalização, morfologia, citogenética, perfil de hemoglobinas e do marcador molecular citocromo b em jabutis brasileiros, no intuito de explorar o potencial taxonômico discriminativo das metodologias avaliadas. Duas espécies de jabutis são descritas para o Brasil, sendo elas, C. denticulatus e C. carbonarius, entretanto, observou-se, inicialmente com base em caracteres morfológicos e de coloração, a existência de populações que não correspondiam ao padrão típico da espécie C. carbonarius, sendo classificados neste estudo como morfotipos 1 e 2.
A hipótese proposta é que os morfotipos correspondam a espécies já diferenciadas, e que não devem ser consideradas como uma mesma unidade taxonômica que C. carbonarius. Foram avaliados jabutis depositados no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e no Museu Paraense “Emílio Goeldi”, nos bosques municipais de São José do Rio Preto – SP e Araçatuba – SP e no Criatório de Animais Silvestres e Exóticos “Reginaldo Uvo Leone” em Tabapuã – SP.
Com base nos dados obtidos pela avaliação biogeográfica dos espécimes na literatura, observou-se que, a distribuição da espécie C. carbonarius está associado à região Nordeste do país, não havendo no entanto, espécimes depositados nas coleções visitadas.
No Brasil, C. denticulatus ocorre em todos os estados da Amazônia Legal, além de apresentar registros isolados para o domínio da Floresta Atlântica, nos estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, e para a região Centro-Oeste, nos estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Na região Nordeste, apresenta ocorrência no estado da Bahia. O morfotipo 1, apresenta distribuição geográfica mais abrangente que C. carbonarius e possivelmente é atribuído a ele, os relatos de distribuição associados a C. carbonarius, indicando associação equivocada do morfotipo 1 como uma mesma unidade taxonômica que C. carbonarius. O morfotipo 2 apresenta ocorrência restrita aos estados do Pará, Maranhão e Piauí.

Esses dados indicam que parte da distribuição atribuída a C. carbonarius, se deve ao fato de todos os morfotipos serem considerados como uma única unidade taxonômica. Aspectos comportamentais, como a comunicação intraespecífica, podem se mostrar tão confiáveis quanto os dados morfológicos ou moleculares para inferir relações evolutivas. A análise das características físicas da vocalização [frequência fundamental (Hz), intervalo entre notas (s), duração de cada nota (s) e número de notas de cada vocalização] realizadas entre C. carbonarius e morfotipo 1, monstraram diferenças estatisticamente significantes em relação ao intervalo entre notas (s) p=0,0000; duração de cada nota (s) p=0,0000; (Hz) p=0,0009 e número de notas por vocalização p=0,0002 nos dois grupos estudados. Os experimentos de preferência sexual por estímulo sonoro não foram conclusivos com base na vocalização espécie específica, sendo que, apenas fêmeas de C. carbonarius demonstraram preferência por vocalizações de machos da mesma espécie, indicando possíveis mecanismos de isolamento reprodutivo.

Para explorar a presença de caracteres morfológicos sexualmente dimórficos e de diferenças morfológicas entre C. denticulatusC. carbonarius e o morfotipo 1, os valores encontrados para as medidas registradas foram inicialmente submetidos à análise de estatística descritiva. Foram então realizadas duas análises: uma para cada grupo, comparando os sexos e uma para cada sexo, comparando os grupos. Para testar a variação interespecífica de tamanho e forma foi utilizada matriz de correlação para a análise de componentes principais (ACP). Após a ACP, realizou-se e análise de fatores, no intuito de elencar as características que possuíam mais de 0,75 de correlação na diferenciação entre os sexos.

Os resultados obtidos se apresentaram condizentes com a hipótese de que o morfotipo 1 corresponde a um novo táxon, pois difere do padrão da espécie em relação a morfologia, dimorfismo sexual e coloração. Em relação ao estudo da citogenética clássica, utilizada no intuito de diferenciar as espécies C. denticulatusC. carbonarius e o morfotipo 1 não apresentou dados consistentes que viabilizassem o uso da mesma como parâmetro taxonômico. A coloração convencional por Giemsa revelou um número diplóide 2n = 52 cromossomos para todos os grupos avaliados.

As técnicas de bandamento cromossômico apresentaram baixa reprodutibilidade e constância nos padrões obtidos, não demonstrando sensibilidade e resolução suficientes para permitir a diferenciação entre os grupos avaliados, refletindo o caráter conservado do cariótipo da família Testudinidae. Visando estabelecer o perfil hemoglobínico das espécies C. denticulatusC. carbonarius e o morfotipo 1, foram realizadas eletroforeses em pH ácido em gel de Agar fosfato e em pH alcalino em acetato de celulose, com o intuito de visualizar as frações de hemoglobina de cada espécie.

A cromatografia líquida de alta performance permitiu observar as diferenças percentuais das frações de hemoglobinas, e as eletroforeses de cadeias polipeptídicas em pH ácido e alcalino, a composição das globinas de cada fração. As diferenças observadas no perfil cromatográfico entre C. carbonarius e o morfotipo 1 em relação a C. denticulatus, valida a técnica como método adicional à elucidação de questões taxonômicas em Testudinidae. As semelhanças observadas entre os perfis de hemoglobina de C. carbonarius e o morfotipo 1 em relação a C. denticulatus, sugerem que a separação entre esses grupos é recente.

O sequenciamento dos fragmentos de DNA relacionados ao gene docitocromo b permitiram observar certo grau de homogeneidade entre as amostras de C. denticulatus e as sequências disponíveis na literatura, indicando baixa variabilidade genética em relação a esse fragmento para essa espécie. Em relação aC. carbonarius e os morfotipos 1 e 2, as amostras do presente estudo diferiram daquelas disponíveis nos bancos de dados, indicando estrutura genética variável, possivelmente devido ao fato de que não se consideram, na literatura, divisões taxonômicas dentro de C. carbonarius.

A análise filogenética baseada nesses resultados, não apresentou sinal filogenético efetivo para a diferenciação de C. carbonarius e dos morfotipos 1 e 2, mas os diferenciou de C. denticulatus, indicando que a separação de C. carbonarius e dos morfotipos 1 e 2, se deu posteriormente à separação de C. denticulatus e C. carbonarius. A politomia observada para C. carbonarius e os morfotipos 1 e 2 não é excludente à hipótese de que representam espécies distintas, uma vez que muitos problemas têm sido identificados no uso do gene citocromo b em análises filogenéticas.

É possível que a inclusão de dados morfológicos, comportamentais e de perfil de hemoglobinas em uma matriz mista, com os dados moleculares, permita a separação dos morfotipos 1 e 2 como espécies monofiléticas. Para a realização dessa análise, será necessário a obtenção desses dados para grupos externos, o que permitirá análises filogenéticas mais robustas, que permitirão maior resolução taxonômica ao estudo.

Em vista das diferenças no padrão de distribuição geográfica, vocalização e preferência sonoro específica e morfologia encontradas no presente estudo, sugerimos que o morfotipo 1 deva ser considerado como uma nova espécie. 

Dados referentes ao real status conservacionista das populações naturais de jabutis devem ser revistos, uma vez que a pressão antrópica sobre estas é elevada em todo país. Não há planos de conservação ou recuperação das populações naturais por órgãos públicos ou privados para esse grupo. É muito provável que os jabutis já estejam em status de ameaça mais preocupante que o relatado na literatura.

Comissão Examinadora
Prof.(a). Claudia R. Bonini Domingos (Unesp/SJRP) (orientadora)
Prof.(a). Andre Luis da Silva Casas (Univ. Fed. do Acre)
Prof.(a). Richard Carl Vogt (Inst. Nac. de Pesq. da Amazonia/INPA)
Prof.(a). Lilian Castiglioni (Famerp/SJRP)
Prof.(a). Luis H. Florindo (Unesp/SJRP)

UnAN – Unesp Agência de Notícias
Comentários

Notícias relacionadas