Especialistas colocam método tradicional de ensino em cheque

Padronização pode gerar desmotivação do aluno pelo ensino, pela escola e, ainda, prejudicar sua carreira no futuro

 

O modelo de ensino tradicional representa, na cabeça de muitos pais, a esperança de sucesso profissional para a vida dos filhos. A metodologia é bem conhecida, os alunos são ensinados e avaliados de forma padronizada, na maioria das vezes, com apostilas. Há, ainda, o grande volume de conteúdo a estudar e muita pressão por desempenho em provas nacionais e vestibulares. Cada vez mais, esse modelo começa a ser questionado. Será que a padronização traz, efetivamente, resultados iguais para todos os alunos?

 

Para a psicóloga organizacional da IBE-FGV, Eline Rasera, a resposta é não. Segundo ela, quando apenas um modelo é seguido, os educadores deixam de conhecer e experimentar outros que podem ser melhores aplicados, afinal os conceitos e os alunos evoluem. “Quando os estudantes percebem incoerência entre o que se estuda e o que se percebe como realidade, tendem a perder o interesse e ficam desmotivados pelo assunto, pelo estudo e até pela escola”, explica.

 

A coordenadora pedagógica das escolas da Fundação Romi, localizada em Santa Bárbara d´Oeste, Luciana Bueno Bruscagin, destaca que a educação deve ter como foco a formação global e integral dos alunos e não somente uma educação específica, padronizada e individual. “Se não pensarmos nos jovens como seres integrais e com diversas capacidades, desprezaremos inteligências tão importantes quanto as intelectuais, que são o foco das escolas tradicionais”, diz a educadora.

 

Ainda segundo a especialista da IBE-FGV, a metodologia padronizada pode trazer prejuízos para a futura vida profissional do estudante, uma vez que o mercado de trabalho atual busca pessoas cujo conhecimento transcenda o senso comum. “Quando se informa e ensina através de modelos padrões, diminuem-se a capacidade de reflexão, de criação, de utilizar as conexões cerebrais para desenvolver novos modelos. Mantém-se somente a memória e a reprodução de informações, diminuindo também a capacidade para encontrar soluções de problemas, criar novos produtos entre outros”, explica.

 

O aluno como protagonista

 

Ao invés de apostilas, simulados e mapa de sala, o corpo docente das escolas da Fundação Romi lida, literalmente, com outros desafios diários.  Isso porque a metodologia pedagógica do Núcleo de Educação Integrada (NEI) – do 5º ao 9º ano – e do Centro de Vivências do Desenvolvimento Infantil (CEDIN) – para crianças de quatro a seis anos – foge do tradicional, não se atém, apenas, a conteúdos curriculares, mas, principalmente, ao desenvolvimento de atitudes e comportamentos solidários, cuja principal proposta é habilitar o aluno na busca de uma aprendizagem contínua.

 

O método de ensino, baseado no construtivismo de Jean Piaget, Paulo Freire e na experiência da Escola da Ponte, do educador José Pacheco, incentiva a autonomia dos alunos e o trabalho e equipe. Composto por 31 profissionais multidisciplinares, o corpo de professores do NEI e do CEDIN cria o próprio material utilizado pelos alunos, que são chamados de desafios. Não há o uso de apostilas, o desenvolvimento do aprendizado é personalizado e diferente a cada ano.

 

Para a psicóloga, o ensino alternativo provoca reflexões, análises e debates, o que mobiliza conexões cerebrais e permite uma ampliação da experiência e do aprendizado. Além disso, neste processo há o aspecto social, a troca com o outro e o grupo. Assim, o aluno aprende desde cedo a ouvir, analisar e aceitar outras opiniões, questões fundamentais para a carreira profissional.

 

“No empreendedorismo, uma das competências requeridas é a iniciativa, com a criação de novos produtos, a capacidade de negociar e fazer parcerias. Tudo isso pode ser aprendido e treinado com atividades de interação social em atividades de grupo”, afirma Eline.

 

Padronização na hora de avaliar

 

No modelo atual tradicional, os resultados de uma escola são mensurados com base nos índices de aprovações em vestibulares e provas nacionais. Para a educadora da Fundação Romi, essa forma de avaliar e aprovar é pontual e competitiva, uma vez que não conseguem “medir” a inteligência processual, solidária e, ainda são incapazes de reconhecer a inteligência criativa dos alunos. “Isso frustra e deixa de fora muitos jovens com essas capacidades tão fundamentais para a formação de profissionais de excelência”, completa.

 

“Ao contrário, estamos estimulando a competição individual e, com isso, o egocentrismo, numa análise mais profunda. Desta forma, os alunos e a família perdem, as empresas perdem e a sociedade fracassa. Podemos e devemos mudar esse modelo”, completa a especialista da IBE-FGV.

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