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24horas Opinião

Brasil e o dia da marmota

Por Cássio Faeddo

 

Talvez nem todos se lembrem do filme “ Feitiço do Tempo”, ou Groundhog Day. “Feitiço do Tempo” é uma película estrelada por Bill Murray que interpreta um arrogante meteorologista, Phil Connors, que é designado, a contragosto, para a cobertura do dia da marmota em uma cidadezinha do interior dos EUA. Se a marmota sair da toca é sinal de que o inverno está acabando.

Por uma dessas razões que ocorrem na ficção, o meteorologista Phil Connors, ao chegar na cidade para a cobertura, passa a acordar e viver o mesmo dia todos os dias. Assim, o rádio relógio sempre toca às 6 horas a mesma música, e os acontecimentos do dia se repetem “ad eternum”.

O filme traz algumas mensagens e vale a pena passar algumas horas aproveitando uma boa história.

No Brasil, a ficção virou realidade, porque desde o início da pandemia, para não mencionar até mesmo o ano de 2019, passamos a viver o dia da marmota. Discussões sobre isolamento, negacionismo, vacina e sua obrigatoriedade, ausência de planejamento, cloroquina, guerra política e expressiva vitória de muitos políticos tradicionais na última eleição.

Passamos até a ler nas redes milhares de diagnósticos de “especialistas” sobre a China e Relações Internacionais que deixariam Henry Kissinger deprimido pela carreira escolhida diante de tantos disparates.

Mas vejamos como se materializa mais um dia da marmota no Brasil: o planejamento enviado ao Supremo Tribunal Federal pelo Ministério da Saúde a respeito do plano de vacinação. Se fosse um trabalho escolar ganharia pontos pela bela capa, lay out e acabamento gráfico.

Há uma verdadeira descrição do que é uma vacina, onde pode ser armazenada etc etc.

Todavia, não é um plano. Pouco responde sobre aqueles básicos itens de qualquer bom plano: o que (what), por quê (why), onde (where), quando (when), quem (who), como (how) e quanto custa (how much). O conhecido 5W 1H do programa de qualidade total no estilo japonês, com variação no 5w 2h.

Não, esse não é um texto de um engenheiro, mas sabemos que um bom plano se traduz em poucas páginas, atribuições e assertividade.

Sabemos também que desde meados de 2020 os países passaram a negociar com todos os laboratórios que estavam com estudos para a produção de vacina contra o Coronavírus. Pfizer, Moderna, Oxford, por exemplo, negociaram com diversos países.

Mas aqui não, aguardou-se que a montanha viesse a Maomé. Óbvio, pois a inércia é a tônica para quem acha que aqui vive um bando de maricas com medo de uma gripezinha.

Como vivemos no país do dia da marmota, todos os dias são iguais, e somos obrigados a conviver com mortes, discursos absurdos, pouco ou nenhum apreço pela ciência e muita inépcia na gestão.

E quanto tempo viveremos o dia da marmota? Não sabemos. Certamente isso pode mudar se conseguirmos um dia termos uma população mais educada e consciente de quem coloca no poder para representá-la.

Enquanto isso, no dia eterno, já temos quase 200 mil mortos pela Covid-19.

 

Sócio Diretor da Faeddo Sociedade de Advogados. Mestre em Direitos Fundamentais pelo UNIFIEO.  Professor de Direito. MBA em Relações Internacionais/FGV-SP Blog: www.cassiofaeddo.com.br