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Estudo alerta para risco de perdas na soja e reforça necessidade de proteção da safra

Redação 31 de outubro de 2026 6 minutes read
Estudo alerta para risco de perdas na soja e reforça
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Pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a Croplife Brasil — entidade que representa o setor de biotecnologia, melhoramento genético e defensivos agrícolas —, aponta que as plantações brasileiras de soja registrariam perdas de até 55% na produtividade sem a proteção adequada contra pragas, doenças e plantas daninhas.

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Conforme o levantamento, a retração na safra poderia gerar reflexos negativos na economia nacional e encarecer os produtos ao consumidor final. 

Por outro lado, a aplicação de defensivos químicos constitui um método de defesa controverso, visto que determinados compostos empregados no manejo fitossanitário oferecem riscos ao meio ambiente e à saúde pública, aponta relatório divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

De acordo com o Ipea, a soja, o milho e a cana-de-açúcar concentram 76% do volume total de agrotóxicos consumidos no território nacional.

Doenças nas lavouras

O estudo conduzido pela Universidade Federal de Viçosa simulou os impactos de quatro doenças (entre elas a ferrugem-asiática e a mancha-alvo), cinco pragas (como a mosca-branca) e nove plantas daninhas.

Os analistas examinaram três cenários: plantações sem nenhum tipo de intervenção, com controle parcial (que assegura até 40% de proteção) e com controle ótimo (80% de proteção).

A instituição calculou que, sob controle ótimo, o rendimento por hectare atinge 72 sacas. O manejo parcial assegura 52 sacas, o que representa 28% a menos que a taxa ótima. Na ausência de controle, a colheita despenca para 32 sacas por hectare, configurando uma quebra de 55%.

Diante desse quadro, o estudo aponta que, para suprir as perdas decorrentes da ausência de manejo fitossanitário, seria preciso cultivar uma superfície suplementar de 33,5 milhões de hectares, dimensão equivalente à área do estado de Goiás. O prejuízo médio em um cenário sem intervenção atingiria 121,3 milhões de toneladas, montante avaliado em R$ 223,5 bilhões. 

Considerando o patamar de controle ótimo, a projeção da receita brasileira com as exportações de soja alcança US$ 44,2 bilhões. Sem qualquer proteção, o valor cai para US$ 26,6 bilhões, configurando uma defasagem potencial de US$ 17,6 bilhões por safra, segundo a pesquisa.

A retração na oferta poderia provocar uma majoração estimada em até 49% no preço da oleaginosa.

Esse movimento geraria um acréscimo de aproximadamente 0,26 ponto percentual na inflação oficial do país, medida pelo IPCA, visto que o encarecimento da soja repercute diretamente sobre os valores de itens como óleo, leite e ovos.

“Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço da carnes, carnes de porco, de frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja”, destaca a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho.

A pesquisa contempla quatro abordagens de controle fitossanitário para mitigar perdas nas lavouras: a biotecnologia (como os organismos geneticamente modificados), o melhoramento genético, os bioinsumos e os defensivos químicos, além do manejo integrado, que combina duas ou mais dessas frentes.

Defensivos

Investigação publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que, entre 2003 e 2023, a utilização de defensivos químicos — comumente chamados de agrotóxicos — quadruplicou no país, saltando de um patamar anual de 180 mil toneladas para 800 mil toneladas.

Com isso, o Brasil consolidou-se como a nação com o maior índice de aplicação de agrotóxicos por hectare cultivado, registrando 10,9 quilos por hectare (kg/ha), volume quatro vezes superior ao dos Estados Unidos (2,85 kg/ha) e cinco vezes maior que o da China (1,9 kg/ha).

“Os defensivos químicos podem apresentar riscos à saúde humana, incluindo efeitos agudos e crônicos, dependendo da toxicidade das substâncias e dos níveis de exposição. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos e afetar organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, com consequências para a biodiversidade”, alerta o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Robson Barizon.

Barizon pondera que os organismos geneticamente modificados podem atuar tanto como instrumento para diminuir a aplicação de agrotóxicos quanto como vetor para a sua ampliação. 

Essa dualidade ocorre porque algumas plantas geneticamente modificadas apresentam imunidade a enfermidades e predadores, tornando dispensável o uso de insumos químicos para essa finalidade.

Em contrapartida, certas culturas OGM também toleram a ação de herbicidas. Desse modo, os agricultores podem intensificar as dosagens desses produtos para potencializar o combate às ervas daninhas que brotam na lavoura.

“No caso dos OGM, aprovados para comercialização, não existem evidências científicas robustas de riscos adicionais à saúde humana associados ao seu consumo. Os possíveis impactos ambientais estão relacionados principalmente às características da modificação genética e às práticas agrícolas associadas, como o uso intensivo de herbicidas em culturas tolerantes, que pode favorecer a seleção de plantas daninhas resistentes”, explica Barizon.

O coordenador de Sustentabilidade da Croplife, Pedro Duarte, ressalta que o setor mantém constante atenção em relação à segurança dos compostos químicos empregados na defesa das plantações.

“Para que um produto seja aprovado no Brasil, um defensivo químico passa por muitos estudos. Há um investimento muito grande do setor para poder garantir que aquele produto aprovado tenha a segurança, quando aplicado dentro das recomendações”, afirma Duarte.

Entre 2005 e 2019, o país registrou 3.151 novos agrotóxicos para aplicação agrícola, sendo que apenas 20% desse total enquadraram-se na categoria de baixa toxicidade, aponta o levantamento do Ipea.

O Ipea aponta ainda que, após a sanção da nova Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023), o ritmo de homologação de defensivos químicos foi acelerado. No ano de 2024, foram concedidas 663 liberações de novos produtos, superando o registro de 555 itens em 2023.

Balanços do Ministério da Saúde divulgados pela organização não governamental (ONG) Repórter Brasil indicam que, no período compreendido entre 2015 e 2025, foram notificados 73.391 episódios de intoxicação por agrotóxicos em âmbito nacional, com 9.729 ocorrências contabilizadas somente no último ano.

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