Roberta Luchsinger em entrevista à CNN Brasil — Foto: Reprodução/CNN Brasil
Empresária investigada no caso das fraudes do INSS afirma que pretende colaborar com a Justiça, relata contatos entre integrantes do governo e o filho do presidente e cita contratos bilionários de construtora; envolvidos negam irregularidades
A empresária Roberta Luchsinger voltou ao centro do debate político nacional após conceder, na noite de sábado (17), uma entrevista exclusiva à CNN Brasil. Investigada pela Polícia Federal (PF) em apurações relacionadas ao esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ela fez acusações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e relatou supostos contatos entre integrantes do governo federal e pessoas de seu círculo de relações.
Durante a entrevista, conduzida pelos jornalistas Débora Bergamasco e Iuri Pitta, Roberta afirmou que pretende buscar um acordo de delação premiada e declarou que não pretende poupar pessoas que, segundo ela, tenham informações relevantes sobre os fatos investigados.
“Eu não vou poupar ninguém, porque o que está em questão é a verdade, doa a quem doer”, afirmou à CNN.
As declarações foram dadas em meio a três investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) e envolvem suspeitas de corrupção e tráfico de influência. As apurações ainda estão em andamento, e as acusações apresentadas pela empresária precisam ser avaliadas pelas autoridades e confrontadas com provas.
Quem é Roberta Luchsinger
Roberta Moreira Luchsinger é empresária, herdeira de um ex-acionista do antigo banco Credit Suisse e ligada ao setor de consultoria e intermediação empresarial. Ela ganhou notoriedade nacional por sua proximidade com Fábio Luís Lula da Silva e por sua relação com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Em 2018, Roberta concorreu a uma vaga de deputada estadual em São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores (PT), mas não foi eleita.
Um episódio anterior que contribuiu para torná-la conhecida ocorreu em 2017, quando anunciou uma iniciativa de doação de bens avaliados em aproximadamente R$ 500 mil ao então ex-presidente Lula. A iniciativa, conhecida como “Bolsa Lula”, acabou barrada pela Justiça.
A empresária também publicou registros fotográficos ao lado de Lula e de outras figuras públicas. Em agosto de 2026, o presidente afirmou, em entrevista à TV Globo, que não conhecia Roberta pessoalmente. A declaração ganhou repercussão diante das imagens que circulavam publicamente.
Na entrevista à CNN, Roberta afirmou que já foi uma apoiadora do presidente e que se sentiu abandonada após passar a ser alvo de investigações e de declarações públicas de Lula.
Investigação começou a partir do caso do INSS
O nome de Roberta aparece nas apurações relacionadas à Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU).
A operação investiga um esquema de descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões. As apurações identificaram suspeitas de que entidades e empresas teriam participado de mecanismos para retirar valores de beneficiários sem autorização válida.
Segundo informações divulgadas pela imprensa a partir de documentos da investigação, a empresa RL Consultoria e Intermediações, registrada em nome de Roberta, teria recebido cerca de R$ 1,5 milhão em transferências ligadas a uma empresa associada ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes.
A PF investiga se a empresária atuou na movimentação de recursos e em estruturas empresariais que poderiam ter sido utilizadas para ocultar valores. Roberta foi alvo de busca e apreensão em dezembro de 2025 e passou a cumprir medidas cautelares determinadas pela Justiça.
A investigação também procura esclarecer a relação entre ela, Antunes e Fábio Luís Lula da Silva, além de possíveis tratativas comerciais relacionadas ao mercado de cannabis medicinal e a contatos com órgãos públicos.
Roberta nega ter cometido irregularidades e contesta a interpretação de que sua relação com Lulinha caracterizaria uma sociedade empresarial. Em manifestações anteriores, sua defesa sustentou que ela prestou serviços empresariais e foi remunerada por eles.
Lulinha também nega envolvimento em irregularidades e afirma que pretende demonstrar sua inocência no curso das investigações.
Empresária afirma que ministros pediam ajuda para chegar ao presidente
Um dos pontos de maior repercussão da entrevista foi a afirmação de Roberta de que integrantes do governo federal a procuravam para tentar conseguir reuniões com Lula ou obter prioridade na análise de determinados assuntos.
“Eu nunca procurei muito ninguém. As pessoas me procuravam”, declarou.
Ao explicar a afirmação, a empresária mencionou contatos com ministros, citando Leonardo Barchini, da Educação, e Frederico de Siqueira Filho, das Comunicações.
Segundo Roberta, sua proximidade com pessoas que circulavam no ambiente político facilitava o contato entre diferentes interlocutores. Ela afirmou que era procurada para ajudar na obtenção de agendas e para conversar sobre projetos.
As declarações, contudo, não comprovam por si só que tenha ocorrido tráfico de influência ou favorecimento ilegal. Para determinar se houve irregularidade, será necessário esclarecer quais encontros ocorreram, quais assuntos foram tratados, se houve pedidos específicos e se alguma decisão administrativa foi influenciada indevidamente.
A empresária também afirmou que Fábio Luís Lula da Silva teria se reunido diversas vezes com ministros do governo e que Lula teria conhecimento desses contatos.
O contexto e o conteúdo dos encontros mencionados não foram detalhados integralmente na entrevista.
O ministro Camilo Santana, citado por Roberta ao mencionar encontros e relações pessoais, negou ter tratado de assuntos governamentais ou negócios com a empresária e afirmou não manter relação com ela.
Construtora com contratos de R$ 2 bilhões entra no relato
Outro ponto apresentado à CNN envolve a Empresa Construtora Brasil (ECB), integrante do grupo português Mota-Engil.
Roberta afirmou que a empresa acumulou contratos de aproximadamente R$ 2 bilhões no Brasil desde que Amauri Rodrigues Pinha assumiu a presidência do grupo. Ela também mencionou que Pinha seria vizinho e amigo de Lulinha.
A empresária alegou que Fábio Luís teria ajudado a construtora a firmar contratos com o governo federal. Ao falar sobre o assunto, entretanto, disse não estar diretamente envolvida nessa história e afirmou conhecer o caso.
A existência de contratos públicos e o crescimento de uma empresa no mercado não comprovam, isoladamente, irregularidade. Para verificar a alegação, seria necessário identificar os contratos citados, os órgãos responsáveis, os processos de contratação, as datas, os valores e eventuais evidências de interferência indevida.
A CNN informou que procurou o grupo Mota-Engil, mas não havia recebido resposta até a publicação da reportagem.
Em nota reproduzida pela emissora, a equipe de comunicação de Lula afirmou que o presidente desconhece os fatos relatados por Roberta, negou que ele tenha mantido interlocução com a empresária e declarou que não existe contrato do governo federal com ela.
A defesa de Lulinha, por sua vez, negou qualquer irregularidade e afirmou que as relações dele com políticos, inclusive aqueles que se tornaram ministros, são de natureza pessoal. A defesa também contestou as declarações públicas da empresária e disse que ele comprovará sua inocência nos autos.
Relação com ex-chefe de gabinete e investigação sobre pagamentos
A entrevista também abordou a relação de Roberta com Marco Aurélio Ribeiro Santana, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência da República.
A investigação apura pagamentos, empréstimos e a compra de presentes e joias relacionados ao ex-assessor. Segundo informações divulgadas pela imprensa com base em elementos reunidos pela PF, foram encontradas referências a joias compradas por Roberta para Marcola.
À CNN, a empresária afirmou que não vê crime nos empréstimos pessoais que disse ter feito ao ex-assessor e sustentou que não recebeu contrapartida pelos favores.
Roberta declarou que cabe às autoridades avaliar se os fatos configuram crime ou outra irregularidade. A investigação deverá esclarecer a origem dos recursos, a natureza dos pagamentos, as condições dos empréstimos e a existência ou não de relação com decisões ou atos praticados no exercício de funções públicas.
A defesa de Marcola afirmou, em manifestações divulgadas anteriormente, que os valores e presentes estavam relacionados a um empréstimo que teria sido quitado e negou favorecimento indevido.
Roberta pretende fazer delação premiada
A possibilidade de colaboração com a Justiça foi uma das principais declarações da entrevista. Roberta afirmou que deseja apresentar informações sobre os fatos investigados e que não pretende assumir sozinha eventual responsabilidade por atos que venham a ser comprovados.
A intenção anunciada, entretanto, não significa que exista um acordo de delação premiada homologado ou sequer formalmente aceito pelas autoridades.
Para que uma colaboração produza efeitos jurídicos, é necessário que as autoridades competentes avaliem seu interesse para a investigação e que as informações apresentadas sejam acompanhadas de elementos capazes de corroborá-las. A simples citação de nomes ou a apresentação de acusações não é suficiente para comprovar responsabilidade criminal.
Questionada sobre quais informações poderia entregar, Roberta afirmou que não poderia entrar em detalhes naquele momento.
A eventual colaboração poderá esclarecer pontos ainda sob investigação, desde que as informações sejam verificáveis e acompanhadas de provas.
Lula e Lulinha contestam as acusações
Em resposta às declarações, a equipe de comunicação do presidente Lula afirmou que ele desconhece os fatos relatados pela empresária e negou qualquer interlocução com ela. O comunicado também questionou o momento da entrevista, realizada a uma semana do segundo turno das eleições presidenciais.
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva declarou que ele não cometeu irregularidades, que seus dados bancários, fiscais e telemáticos foram disponibilizados às autoridades e que pretende comprovar sua inocência.
As defesas contestam as acusações, enquanto as investigações seguem em andamento. Até que os fatos sejam esclarecidos pelas autoridades, não é possível tratar as declarações de Roberta como comprovação de crimes cometidos pelos citados.
O que ainda precisa ser esclarecido
A entrevista ampliou a repercussão pública do caso, mas deixa questões que dependem de apuração documental e investigação oficial:
- Possíveis contatos com ministros: quais encontros ocorreram, quais assuntos foram tratados e se houve pedidos ou decisões administrativas decorrentes dessas conversas.
- Contratos da ECB: quais contratos compõem o valor mencionado por Roberta, como foram realizados os processos de contratação e se há indícios documentados de interferência indevida.
- Relação entre Roberta e Lulinha: se houve negócios compartilhados, pagamentos ou participação conjunta em tratativas empresariais, pontos que ambos contestam ou negam.
- Pagamentos e presentes a ex-assessor: qual era a natureza dos valores, se foram empréstimos efetivamente quitados e se existiu alguma contrapartida ligada à função pública.
- Eventual delação premiada: se Roberta formalizará uma proposta de colaboração e se as informações apresentadas terão elementos novos e provas verificáveis.
O esclarecimento dessas questões depende da análise dos documentos, dos depoimentos e dos demais elementos reunidos pelas autoridades responsáveis.
A entrevista de Roberta Luchsinger à CNN Brasil recolocou as investigações do caso INSS no centro do debate nacional e acrescentou novas declarações sobre relações políticas e empresariais. O próximo passo relevante será verificar quais dessas afirmações poderão ser confirmadas por provas e quais conclusões serão alcançadas pelas investigações.







