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Por Dennis Moraes
Há momentos em que parece que vivemos uma verdadeira inversão de valores. O jornalista aponta um fato, questiona uma decisão pública, critica a atuação de um agente político ou simplesmente coloca uma situação diante da sociedade — e, em vez de alguém responder aos fatos, surgem tentativas de transformar o debate jornalístico em uma questão pessoal.
É curioso.
Quando não conseguem contestar a informação, tentam desqualificar quem informou.
Quando não conseguem explicar uma decisão, procuram atacar quem fez a pergunta.
Quando não têm argumentos para enfrentar os fatos, aparecem as narrativas paralelas, as provocações e, algumas vezes, até pessoas que nada têm a ver com a discussão são colocadas no meio do caminho.
Isso não é debate público. É uma tentativa de tirar o foco do que realmente importa.
O jornalismo não existe para agradar políticos, partidos, grupos ideológicos ou qualquer pessoa que ocupe temporariamente uma função pública. Existe para informar a sociedade, questionar o poder e colocar os fatos sob escrutínio.
E isso incomoda.
Principalmente quando a crítica atinge aquilo que alguns prefeririam manter distante dos olhos da população.
O problema é quando a política vira balcão de interesses
Uma das maiores distorções da política está justamente na inversão da finalidade do mandato.
Ser vereador não deveria ser encarado como um emprego, uma vitrine pessoal ou uma oportunidade de construir uma carreira baseada em pequenas ações de apelo popular. O mandato parlamentar é uma função pública e, portanto, uma responsabilidade.
É claro que reconhecer datas, homenagear pessoas, incluir eventos em calendários oficiais e apresentar projetos que tenham relevância cultural ou social faz parte da atividade legislativa. Mas o mandato não pode se resumir a isso.
O vereador tem uma função muito mais ampla e muito mais nobre: fiscalizar o Executivo, discutir o orçamento público, propor políticas públicas, representar os interesses da população, acompanhar a aplicação dos recursos e cobrar resultados para a cidade.
É para isso que alguém recebe um mandato.
O problema é que, algumas vezes, a política do espetáculo acaba ocupando o espaço que deveria ser destinado à política de resultados.
E quando a imprensa questiona essa realidade, surge a velha tentativa de transformar uma discussão institucional em uma briga pessoal.
Não é sobre o jornalista. É sobre os fatos
Essa talvez seja a parte mais importante.
Quando um jornalista publica uma crítica relacionada à atuação de um político, não se trata necessariamente de uma questão pessoal. O debate deve permanecer no campo das ideias, das decisões, dos documentos, dos números e das ações públicas.
Se a informação estiver errada, que se apresente a correção.
Se houver uma interpretação equivocada, que se apresente o contraponto.
Se existir outro lado da história, que ele seja colocado publicamente.
A imprensa responsável não tem problema algum em corrigir um erro. O que não pode acontecer é substituir o debate sobre os fatos por ataques contra quem teve coragem de colocá-los em evidência.
Porque, no fim das contas, o jornalista não é o assunto. O assunto é aquilo que foi publicado.
Covardia é fugir do debate
Há uma diferença enorme entre discordar de uma opinião e tentar desviar a discussão para o campo pessoal.
Quem exerce uma função pública precisa estar preparado para ser questionado. Faz parte do cargo. Faz parte da democracia.
O político que deseja os aplausos da população precisa também estar preparado para receber críticas.
E quem acredita que determinada informação está errada deveria ter a coragem de responder diretamente, apresentar documentos, explicar suas decisões e defender sua posição.
É assim que funciona uma democracia madura.
O caminho mais fácil é tentar criar uma cortina de fumaça, alimentar indignações artificiais ou estimular terceiros a atacarem pessoalmente quem fez a crítica.
Mas o caminho mais fácil nem sempre é o mais digno.
O jornalismo não precisa entrar no jogo
Se existe uma coisa que o jornalismo não pode fazer é perder sua essência por causa de provocações.
A resposta do jornalista não deve ser pessoal.
Deve ser factual.
Documento contra narrativa. Informação contra boato. Argumento contra provocação. Jornalismo contra desinformação.
É nesse momento que precisamos separar o joio do trigo.
Sempre haverá hipócritas. Sempre haverá oportunistas. Sempre haverá quem enxergue a política como instrumento de benefício próprio. E também haverá aqueles que compreenderão que um mandato é uma oportunidade de servir à população.
Cabe ao eleitor fazer essa distinção.
Porque o político não é dono do mandato. O mandato pertence à sociedade.
E talvez seja justamente por isso que algumas críticas incomodem tanto.
A história sempre coloca as coisas no lugar
O jornalismo existe há muito tempo. Sobreviveu a governos, partidos, ideologias, crises e tentativas de silenciamento.
Políticos passam.
Mandatos terminam.
Discursos desaparecem.
Mas os fatos permanecem.
Quem hoje tenta desviar uma discussão para o lado pessoal pode até conseguir algum barulho momentâneo. Pode até encontrar quem compre a narrativa. Pode até transformar uma crítica institucional em uma guerra de opiniões.
Mas isso não muda o fato original.
E é justamente por isso que o jornalismo precisa continuar fazendo aquilo que sempre fez: perguntar, investigar, publicar, fiscalizar e cobrar respostas.
Não é preciso responder pessoalmente a quem prefere o ataque.
A resposta está no trabalho.
Está nos fatos.
Está nos documentos.
Está naquilo que foi publicado.
E, principalmente, está na consciência de que exercer jornalismo com independência significa aceitar que nem todos irão gostar do que será dito.
Se a crítica é verdadeira, ela precisa ser enfrentada.
Se é falsa, que seja desmentida com fatos.
O que não podemos aceitar é a tentativa de transformar o jornalista no problema simplesmente porque ele teve coragem de apontar o problema.
Vida que segue. O jornalismo continua. E os fatos, mais cedo ou mais tarde, sempre encontram seu lugar na história.
Dennis Moraes é Comendador outorgado pela Câmara Brasileira de Cultura, Jornalista e CEO do Grupo Dennis Moraes de Comunicação. Acesse: dennismoraes.com.br






