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Por Dennis Moraes
Existe uma diferença enorme entre conquistar um cargo público e estar verdadeiramente preparado para exercê-lo. A primeira conquista depende dos votos, das alianças e das circunstâncias políticas. A segunda exige algo que não se aprende em campanhas eleitorais, não se compra com dinheiro e não se conquista por meio de um título: caráter.
A moralidade, a educação familiar e os princípios transmitidos por pais, mães, avós e irmãos deveriam acompanhar qualquer pessoa que se propõe a representar a sociedade. Afinal, antes de ser vereador, secretário, prefeito ou qualquer outra autoridade, existe um ser humano. E é justamente nesse ponto que algumas pessoas parecem se perder.
Basta conquistar um pequeno espaço de poder para que a humildade dê lugar à arrogância, a disposição para ouvir seja substituída pela prepotência e os valores de uma vida inteira sejam colocados em segundo plano. Como se um simples cargo público fosse suficiente para transformar alguém em uma pessoa superior às demais.
Mas superior em quê?
O mandato pode conferir autoridade institucional e responsabilidades, mas não concede superioridade moral. Não transforma ninguém em dono da verdade, muito menos autoriza alguém a tratar os outros como inferiores. Ainda assim, há quem pareça esquecer a própria história quando conquista uma posição de destaque, colocando os princípios aprendidos dentro de casa abaixo das conveniências e dos interesses pessoais.
O problema é que, às vezes, basta uma pequena vantagem, uma facilidade ou um benefício particular para que valores antes defendidos com tanta convicção sejam deixados de lado. É como se o preço da consciência fosse menor do que o desejo de permanecer próximo ao poder.
Imagine a dor de um avô que procura um representante público para relatar a perda de uma neta. Imagine um pai tentando encontrar acolhimento, atenção ou simplesmente respeito em um momento de sofrimento. Não se espera que um agente público tenha respostas para todas as dores do mundo, mas existe uma exigência básica que deveria anteceder qualquer mandato: humanidade.
Ouvir alguém que sofre não exige conhecimento técnico, articulação política ou formação acadêmica. Exige sensibilidade e a compreensão de que, por trás de cada relato, existe uma história, uma família e uma vida que merece respeito.
Quando alguém que recebeu a confiança popular debocha, demonstra desatenção ou trata com desprezo uma pessoa que enfrenta a perda de um ente querido, ultrapassa-se uma linha que jamais deveria ser ignorada. Não se trata apenas de falta de educação, mas de um problema que atinge a própria dignidade humana.
A política deveria aproximar as pessoas das soluções para seus problemas. Quando se transforma em palco para a vaidade, o ressentimento e a necessidade de demonstrar autoridade, deixa de cumprir sua função mais importante: servir à população.
É nesse contexto que surge o chamado micropoder: uma posição que, embora limitada diante das dimensões da sociedade, assume proporções gigantescas na cabeça de quem não está preparado para exercê-la.
Um mandato de vereador, por exemplo, representa uma responsabilidade enorme perante a comunidade. Não transforma seu ocupante em dono da cidade, tampouco em alguém acima daqueles que o elegeram. Pelo contrário, quanto maior a responsabilidade de representar os outros, maior deveria ser a disposição para ouvir, prestar contas e reconhecer os próprios limites.
O problema começa quando o indivíduo confunde a função pública com a própria identidade. A crítica ao mandato passa a ser interpretada como ataque pessoal. O cidadão que cobra se transforma em adversário. A imprensa que fiscaliza vira inimiga. Em vez de responder aos questionamentos com argumentos, alguns preferem atacar quem questiona.
É o ego ocupando o espaço que deveria pertencer ao interesse público.
O mandato não é patrimônio particular, e a população não é plateia de um espetáculo protagonizado por quem se considera maior do que os demais. O poder é uma responsabilidade temporária, concedida por meio do voto e submetida aos princípios da democracia.

Talvez uma das maiores decepções da vida pública seja assistir à transformação de pessoas que prometiam fazer diferente. Antes de conquistar espaço, criticavam a arrogância alheia, condenavam os excessos e defendiam mais diálogo, respeito e compromisso com a população. Depois de eleitas, passam a reproduzir comportamentos semelhantes àqueles que tanto combatiam.
A promessa de renovação transforma-se em repetição. O discurso de humildade cede lugar à vaidade, enquanto a defesa da população passa a conviver com atitudes que afastam justamente aqueles que deveriam estar no centro das preocupações de um representante público.
Nem sempre as pessoas mudam quando conquistam poder. Às vezes, o poder apenas revela o que elas são quando acreditam que não precisam mais prestar contas a ninguém.
É importante reconhecer que existem agentes públicos sérios, comprometidos e conscientes de suas responsabilidades. Generalizar seria injusto. Entretanto, identificar comportamentos incompatíveis com a função pública é uma obrigação de qualquer sociedade que valorize a democracia. O voto confere legitimidade ao mandato, não imunidade moral às atitudes de quem o exerce.
Nesse cenário, a imprensa também desempenha um papel fundamental. O jornalismo tem a responsabilidade de informar, fiscalizar, questionar e dar visibilidade a assuntos de interesse público. Não deve ser instrumento de perseguição pessoal, mas tampouco pode aceitar intimidações como condição para exercer sua atividade.
Quando um representante reage a críticas atacando veículos de comunicação ou profissionais que questionam suas atitudes, é necessário distinguir o debate legítimo da tentativa de desqualificar quem exerce o direito de informar. Jornalistas também cometem erros e devem responder por eles quando necessário. Isso, porém, não significa que a fiscalização possa ser tratada como uma afronta pessoal.
Quem deseja ocupar um cargo público precisa compreender que a transparência, a prestação de contas e o questionamento fazem parte de suas responsabilidades. A democracia não exige representantes infalíveis, mas pessoas capazes de ouvir, reconhecer falhas e responder por suas decisões.
Existe uma linha tênue entre exercer autoridade e utilizá-la para alimentar a própria vaidade. Entre defender convicções e humilhar quem pensa diferente. Quando essa linha é ultrapassada, a discussão deixa de ser apenas sobre divergências políticas ou ideológicas e passa a envolver valores humanos fundamentais.
Não há ideologia que justifique a crueldade, partido que torne aceitável a humilhação ou mandato capaz de transformar a falta de empatia em virtude. A verdadeira firmeza não está em constranger os outros, mas em manter a serenidade diante das críticas e tratar com dignidade até mesmo aqueles de quem discordamos.
Escrever sobre esse assunto é doloroso porque, apesar das decepções que a vida pública proporciona, ainda existe esperança. Esperança de que as pessoas eleitas compreendam a dimensão da responsabilidade que receberam, de que a política possa melhorar a vida de quem mais precisa e de que o poder seja exercido com equilíbrio, honestidade e respeito.
Em Santa Bárbara d’Oeste, como em tantas outras cidades brasileiras, a sociedade precisa continuar atenta à conduta de seus representantes. Não para transformar a política em um ambiente de ataques permanentes, mas para impedir que a fiscalização seja substituída pelo silêncio e que a arrogância passe a ser tratada como algo natural.
A democracia não termina quando as urnas anunciam o resultado. Ela continua todos os dias, na maneira como os representantes tratam a população, respondem às críticas e se comportam diante daqueles que procuram ajuda.
O voto escolhe representantes. O comportamento deles demonstra se estão à altura da confiança recebida.
No fim, a pergunta mais importante não é quanto poder alguém conquistou, quantas pessoas precisa ouvir ou quantas portas consegue abrir por causa do cargo que ocupa. A pergunta é: que tipo de ser humano essa pessoa escolhe ser quando descobre que tem poder?
A grandeza de alguém não está na cadeira que ocupa, no título que carrega ou na quantidade de pessoas que precisa se dirigir a ela. Está na maneira como trata quem não pode lhe oferecer nada em troca, na capacidade de ouvir quem sofre e no respeito que demonstra quando não há câmeras, interesses eleitorais ou qualquer benefício pessoal envolvido.
O verdadeiro caráter não precisa de mandato para existir. E a falta dele não desaparece quando alguém recebe um título ou assume uma cadeira no Legislativo.
O poder é passageiro, o cargo é temporário e a vaidade é ilusória. Mas as marcas que deixamos na vida das pessoas podem permanecer por muito tempo.
Quem se esquece disso pode até acreditar que está acima da população, como se ocupasse um lugar no Olimpo da política. Mas nenhum mandato transforma seres humanos em deuses, e nenhuma cadeira pública é alta o suficiente para diminuir o valor da dignidade humana.
A sociedade não precisa de representantes que se sintam superiores a ela. Precisa de pessoas que compreendam que estar no poder significa, antes de tudo, ter a obrigação de servir.
Porque, quando o ego se torna maior do que a humanidade, o cargo pode até ser público, mas a finalidade de quem o ocupa passa a ser perigosamente particular.
Dennis Moraes é Comendador outorgado pela Câmara Brasileira de Cultura, Jornalista e CEO do Grupo Dennis Moraes de Comunicação. Acesse: dennismoraes.com.br







