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O dilema de Bolsonaro nas relações internacionais

Dr Cássio Faeddo

Por Cassio Faeddo

No decorrer da história o  pêndulo das relações internacionais ora pende para o lado do multilateralismo, ora pende para o lado da soberania das nações e nacionalismo

No decorrer da história o  pêndulo das relações internacionais ora pende para o lado do multilateralismo, ora pende para o lado da soberania das nações e nacionalismo. Este mecanismo é bastante conhecido nas relações externas, indicando tendências conforme o caminhar da história.

Durante os anos 80 e 90 do Século XX buscou-se maior interação entre os países, que traduziu-se em acordos multilaterais ou mesmo acordos em blocos. Em decorrência desta tendência, globalização como sistema econômico, União Europeia, Mercosul, Nafta, Unasul, dentre outras organizações e expressões, passaram a ser comumente citadas pelos atores internacionais.

Porém, já no Século XXI, a globalização apresentava efeitos indesejáveis para muitos adeptos da soberania nacionalista, e porque não dizer, do protecionismo. Ocorre que os empregos migravam rapidamente para a Ásia, especialmente para a China, além das questões migratórias que atingiam Europa e Estados Unidos, principalmente.

Por isso, no início do Século XXI, a globalização já não era mais tão palatável ao gosto de muitos países, como os EUA, por exemplo. O que fazer quando os empregos caminham forte para a Ásia, especialmente para a China, e a migração chega a Europa e Estados Unidos com força?

Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, o ataque ao World Trade Center, dentre outros alvos, trouxe algo que era muito comum no Oriente Médio, mas inimaginável ao norte-americano, um ataque terrorista de enormes proporções. E mais, os empregos nos anos seguintes foram absorvidos pela China, restando aos norte-americanos e europeus parcela expressiva de migrantes.

O número de migrantes internacionais aumentou mais rápido do que o crescimento da população de acordo com as Nações Unidas. Com isso, a quantidade de migrantes totalizava 3,3% da população global em 2015, enquanto em 2000 somava 2,8%.

No entanto, há diferenças nas regiões do mundo: na Europa, América do Norte e Oceania, os migrantes são pelo menos 10% da população; na África, Ásia e América Latina e Caribe, menos de 2% são estrangeiros.

Empobrecimento da classe média norte-americana e insatisfação crescente dos eleitores, conduziram ao surgimento de governos com discurso da soberania e do retorno sempre idealizado dos bons tempos passados.

Na ONU, em 2017, o presidente Trump assim discursava:

“Nós não esperamos que países diversos compartilhem as mesmas culturas, tradições e nem sequer os mesmos sistemas de governos. (…) Nações fortes, soberanas, permitem que países diversos, com valores diferentes, culturas diferentes e sonhos diferentes, não apenas coexistam mas trabalhem lado a lado na base do respeito mútuo”.

Nada acima do Estado é uma máxima da soberania. Não é difícil a relação com o slogan da campanha de Bolsonaro: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Também não parece muito complicado concluir que este lema agradou tanto soberanistas como líderes religiosos. O fato é que o presidente Jair Bolsonaro e equipe incorporam fortemente o discurso de Trump, mas não entenderam totalmente seu significado. Ocorre que Donald Trump sempre foi claro no discurso de “fazer a América grande novamente”. Por isso, o pragmatismo comercial dos EUA não era para ser a surpresa que aparentemente impactou o governo brasileiro. Quando Trump fala em “America first”, não é só um discurso, é real. Ele dirige-se ao norte-americano médio, seu eleitor, branco, de meia idade, baixa ou média escolaridade, e temeroso em perder emprego e condições de vida para um estrangeiro.

Por isso, após um certo atropelo inicial e a tentativa, de certa forma frustrada, de um alinhamento automático, paternal e amigo de Donald Trump, o presidente Bolsonaro parece entender melhor agora as regras do jogo. Esfriou o tema embaixada em Jerusalém, a China passou a ser um país capitalista para Bolsonaro, e tudo caminha para uma normalização das relações comerciais já estabelecidas anteriormente. E é correto, por que haveríamos de ofender nossos clientes? Especialmente quando os EUA têm demonstrado pragmatismo comercial em assuntos como a OCDE e importação de carne brasileira. O recado foi dado e parece bem absorvido pelo governo brasileiro.

O próximo passo será amainar as críticas ao novo presidente argentino, Alberto Fernández, o que parece bastante razoável se considerarmos os interesses comerciais brasileiros. As escolhas argentinas, em linguagem realista, é um problema do povo argentino, e sequer tem potencial e desequilibrar qualquer relação de poder no cone sul.

Portanto, alinhar-se politicamente a um parceiro na geopolítica global não importa em absorver todos aos seus dogmas políticos históricos, pois há muitas diferenças e peculiaridades nas relações comerciais e diplomáticas do Brasil com outros países, e que são incompatíveis com a política externa norte-americana.

Nesse sentido, melhorou o governo Bolsonaro.

Sobre Cassio Faeddo: Advogado. Mestre em Direitos Fundamentais. MBA em Relações Internacionais. Autor da obra “Erradicação do Trabalho Infantil”, Editora Lesto, São Paulo.

 

 

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