Momento Brasil e as Perspectivas do Futuro

Como temos a oportunidade de nos deparar diariamente com notícias e fatos relevantes e reveladores sobre a atual situação em que se encontra o Brasil e estes, na sua maioria, indicam uma tendência e expectativa nada animadoras para o futuro de nossa economia e, consequentemente, reflexos sobre toda a sociedade, cabe-nos, dentre tantas, uma pergunta: “Quais são os desafios do Brasil para reverter esta situação e retomar o crescimento da economia?”

Certamente poderíamos enumerar vários desafios e imaginar que a tarefa da próxima equipe de governo não será nada fácil e muito menos tranquila, pois nos últimos anos pudemos acompanhar a degradação dos principais indicadores econômicos e uma crise de Estado, conforme comentou o filósofo José Arthur Gianotti, no caderno de política, do jornal o Estado de São, no último dia 14/09/2014.

Vamos comentar abaixo alguns desses desafios, pautados pelo grau urgência, mas destacando que os demais desafios, não menos relevantes, merecem análise e reflexão de todos para a construção de entendimentos.

 

DESAFIO N° 1 – O CONTROLE DA INFLAÇÃO

 

O controle da inflação foi conseguido através da superação de muitas dificuldades e este o Plano Real completa 20 anos, um verdadeiro patrimônio do nosso país. Mas vejamos como estava a inflação e como este dragão se comportou durante os três mandatos, iniciando pelo governo FHC, depois o governo LULA e finalmente, nos dias atuais, com o governo DILMA.

Após o controle de uma correção monetária na faixa de 1.700% ao ano, a inflação ficou abaixo dos dois dígitos há 20 anos.

No governo DILMA, a inflação tem se mostrado inquieta e isso reflete no bolso do cidadão brasileiro. A inflação está muito próxima da meta estabelecida pelo governo DILMA, que é de 6,5%, medida pelo IBGE, no que tange ao Índice de Preços ao Consumidor amplo (IPCA). Como se não bastasse, o Brasil não cresce e o último ano de crescimento satisfatório do Produto Interno Bruto (PIB) foi em 2010 e, por isso, a questão inflacionária é muito importante e diferente de outros momentos vividos nos últimos anos.

 

DESAFIO N° 2 – A MANUTENÇÃO DO EMPREGO E DA RENDA

 

O controle inflacionário sempre esteve associado a uma demanda muito expressiva, que por vez forçava os preços de forma constante e o Banco Central, por outro lado, editava medidas para barrar o consumo em excesso através do aumento do custo do dinheiro com o objetivo de conter a demanda, ou seja, os juros sobem e encarecem as compras do consumidor. Hoje a situação é inversa, pois o problema não é mais uma demanda descontrolada, pela contrário, a procura do consumidor diminuindo sua intensidade o que reflete de forma negativa no varejo e no atacado. A indústria do nosso país nunca foi tão afetada por esta desaceleração no ritmo de crescimento da Economia obrigando-se a férias coletivas e demissões, o que pode agravar ainda mais a crise em 2015.

 

Mas há algo errado nessa conta pois os preços estão subindo, não há forte demanda e os juros estão altos e esta combinação de fatores aponta que a situação é grave e que esse fenômeno, que estamos vivenciando, são diferentes dos anteriores: a indústria, nos últimos quatro anos teve uma inflação maior que 25% e, entretanto, o empresário não conseguiu repassar ao púbico a totalidade dessa correção, diminuindo consideravelmente as suas margens gerando prejuízos. Com o caixa sufocado a única saída foi recorrer aos bancos e interromper os investimentos e, com isso, não consegue expandir seu negócio e a empresa fica endividada, perdendo ainda mais competitividade. Esse desafio é muito grande, pois não se resume apenas ao controle da inflação, mas também na busca do equilíbrio dos setores industrial, varejo e serviços.

Diante desta situação a previsão para o crescimento da indústria (PIB Industrial) segue de forma nada animadora.

 

DESAFIO N° 3 – AUSTERIDADE FISCAL

 

A regra orçamentária de qualquer família é gastar menos do que ganha e para o Governo Federal vale a mesma regra, mas o atual governo não perfaz o exemplo ideal de controle orçamentário. Em 10 anos o número de ministérios quase dobrou, há registros do aumento de despesas acima da cota de arrecadação, orçamentos expostos a expectativas demasiadas, mudança de metodologias técnicas para apuração dos índices controlados, contrariando os princípios da Contabilidade Pública, e falta de credibilidade.

Sem dúvida alguma o governo DILMA não é sinônimo de bom modelo de gestão, muito pelo contrário, e um dos desafios para 2015 será o ajuste das premissas orçamentárias com o objetivo de equilíbrio das contas públicas.

Abaixo o cenário do superávit primário que é o saldo gerado entre o que é arrecadado e o que é pago, sem considerar os juros da dívida do nosso país, valendo observar que a partir de 2011 o indicador perde força e em 2014 a conta ficará muito justa demonstrando o aumento sistêmico de gastos acima da arrecadação, que por sinal só cresce. O próximo governante terá grandes desafios nessa área:

Agora, se considerarmos os juros da dívida o cenário se agrava consideravelmente, pois os juros a partir de 2010, início do Governo DILMA, crescem abruptamente, por motivo de necessidade de capitação de divisas e para a manutenção da dívida interna. Traduzindo, a questão fiscal é um desafio de educação financeira e deve ser compromisso do governo a partir de 2015, pois em suma, o Brasil pagou mais de R$ 1 trilhão de juros em apenas 5 anos.

 

DESAFIO N° 4 – ÉTICA e RESPONSABILIDADE

 

O próximo governante terá a responsabilidade da aplicação correta do dinheiro público. Nos últimos anos todos vimos como não se deve administrar o dinheiro público: extravios, parcerias criminosas, superfaturamentos, obras intermináveis, enfim, nenhum brasileiro gostaria que esses maus exemplos fossem repetidos e, para tanto, a responsabilidade deverá ser acompanhada de uma política proativa e coordenada por pessoas que possam mudar a palavra corrupção pela palavra ação, para o bem do Brasil e de todos os brasileiros.

 

DESAFIO N° 5 – MANTER O CRESCIMENTO DA CLASSE MÉDIA

 

O plano real permitiu nos primeiros 8 anos de governo FHC uma redução de 16% da pobreza da sociedade brasileira. De acordo com IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística foram 9 milhões de pessoas que ascenderam à faixa considerada CLASSE MÉDIA que considera uma renda familiar de R$ 1.764 a R$ 4.076. Essa classe deu um verdadeiro “salto” no governo LULA, através de políticas sociais e do crescimento econômico bastante razoáveis e com isso mais de 24 milhões de pessoas somaram-se ao primeiro grupo, atribuindo um poder de compra maior que as classes A e B juntas. Hoje a classe média já é mais de 50% da população brasileira e deverá ser o viés da balança para decidir o próximo governo. Por outro lado, a inflação alta, taxa de juros elevadas e economia em baixa representam riscos eminentes para todas as classes e em especial para a classe média.

No governo DILMA houve diminuição considerável no desenvolvimento dessa faixa (Classe Média) causando muita incerteza para o próximo governo.

 

DESAFIO N° 6 – CUSTO BRASIL

O assunto é antigo e velho conhecido de todos, mas o problema mais atual que nunca. Não importa quando nem como, mas entra governo e sai governo, o custo que o Brasil paga pela falta de infraestrutura e pela burocracia das instituições (públicas ou provadas), causada por um conjunto de leis ultrapassadas, é muito grande.

Hoje o Brasil penaliza o exportador e retira a competitividade dos produtos brasileiros seja por falta de condição de escoamento da produção, por processos burocráticos extremos ou por taxas elevadas que são considerados como “jabuticabas”, ou seja, só existem no Brasil. Todos esses fatores encarecem e freiam o desenvolvimento do Brasil.

Outro fator de perda de competitividade é a questão tributária sendo uma verdadeira miscelânea onde ninguém se entende, tanto o governo quanto o contribuinte. Tudo é complexo e pergunta-se: por que isso acontece só aqui? Por que não mudamos essa realidade? Por que a reforma tributária é tão falada e nunca sai do papel? A resposta não é simples, mas tentando resumir: falta política fiscal competente, pois sempre gastamos mais e mal tudo o que arrecadamos, onde praticamente 40% de tudo que produzimos fica nas mãos do maior sócio do empresário e do investidor: o Governo. Por isso o temor de mexer na receita é tão grande, sem dúvida nenhuma, e um considerável desafio para o próximo governo

“Quem se habilita a mexer nesse vespeiro?”

 

DESAFIO N° 7 – CREDIBILIDADE

 

A palavra crédito é a que mais se aplica ao Brasil. O nosso país perdeu a sua identidade, não respeitou contratos, criou subterfúgios contábeis para melhorar indicadores, mudou regras de indicadores econômicos e implantou crises nos órgãos estatais de divulgação dos índices econômicos (IBGE e IPEA).

Todos esses acontecimentos denotam um grande movimento de falta de credibilidade e o próximo governante, sendo a continuidade ou não, deverá reverter esse quadro, gerando mais credibilidade. Agência internacionais especializadas apontam forte tendência de redução na classificação do grau de investimento (Investment Grade) no Brasil.

Mudança é a palavra do momento e por isso todos devemos nos conscientizar que a responsabilidade não poderá ser compartilhada, é pessoal e intrasferível.

 

Artigo com professores da FGV : João D. Mantoan e Múcio Zacharias

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