Máscara de V de Vingança vira alvo de pirataria

Maioria das peças que cobriu os rostos dos manifestantes nas ruas do país como símbolo da rebeldia dos jovens é vendida sem licença autoral

brasil-protestos-fabrica-mascaras-guy-fawkes-20130628-02-size-598Máscaras de Guy Fawkes, usada por muitos manifestantes em protestos ao redor do mundo e na recente onda de manifestações no Brasil, em uma linha de montagem da fábrica em São Gonçalo, perto do Rio de Janeiro – Ricardo Moraes/Reuters

 

Em meio à multidão heterogênea que saiu às ruas nas últimas semanas pelo Brasil, uma máscara se repetia: a de Guy Fawkes, soldado inglês que planejou matar o rei Jaime I em 1605 e entrou para o vocabulário pop como adereço do personagem anarquista da história em quadrinhos V de Vingança – que chegou ao cinema em 2005. Por trás do símbolo pop, há uma incoerência. Muitas pessoas que foram às ruas com um cardápio difuso de reivindicações mandaram seu recado usando um produto pirata. Os adereços vendidos nas ruas e pela internet foram produzidos por empresas que não têm contrato com a Warner Bros., detentora dos direitos autorais do personagem desenhado por David Lloyd nos anos 80. Segundo estimativas de empresários do setor, até 80% das máscaras de Guy Fawkes vistas nas passeatas têm origem ilegal.

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A elevação do personagem criado pelo autor de histórias em quadrinhos Alan Moore, em 1982, a símbolo de contestação política é resultado do uso de sua máscara como marca do grupo de hackitivistas Anonymous. O movimento incentivou, pela primeira vez, o uso da máscara em manifestações no protesto contra a seita cientologia ,em 2008, nos Estados Unidos, logo depois do lançamento do filme V de Vingança, evento que distribuiu o adereço como brinde ao final das sessões. Desde então, o rosto com sorriso sarcástico aparece em protestos ao redor do mundo. Julian Assange, fundador do site Wikileaks, apareceu em público com a máscara durante o movimento Occupy London Stock Exchange, em 2011. A procura pelas máscaras no Brasil nas últimas semanas aumentou à medida em que explodiu o número de manifestantes nos protestos agendados nas capitais do país. Devido à alta demanda, uma das maiores lojas de fantasia na Rua 25 de Março, centro de comércio popular em São Paulo, passou a semana vendendo cerca de 200 máscaras por dia a 7 reais. “As máscaras vendem como água”, diz Pierre Sfeir, proprietário da loja Festa e Fantasias, que aproveitou o momento também para desovar cerca de 500 bandeiras do Brasil que estavam encalhadas desde a última Copa do Mundo.

Modismo – Originalmente, a máscara era usada nos protestos pelo mundo por militantes anticapitalistas para se diferenciar de outras correntes esquerdistas. No Brasil, porém, o que se viu foram jovens e estudantes mascarados como o herói anarquista a esmo, quase como um modismo. Diante da demanda, explodiu a pirataria. O movimento foi tão forte que obrigou a Warner a mover, pela primeira vez, uma notificação contra a produção de mercadoria falsificada de apenas um personagem. Na maioria dos casos, a ação é aberta contra empresas que tem todo o portfólio de personagens da Warner em sua linha de produtos licenciados sem autorização. A multinacional americana é detentora dos direitos de divulgação e reprodução de líderes de vendas, como Batman e Super-Homem.

O alvo é a fábrica Condal, sediada em São Gonçalo, na região metropolitana no Rio, famosa pela rapidez como absorve os acontecimentos políticos do país e os transforma em sucesso de vendas de máscaras que recriam as feições de figuras do momento. A proprietária Olga Valles calcula ter vendido 12.000 máscaras de V de Vingança desde o início da onda de protestos pelo país e produz 1.100 unidades por dia para atender às encomendas. “Não temos autorização, mas o personagem é de domínio público, foi inspirado no soldado inglês Guy Fawker, uma figura histórica.”

Apesar do sucesso, a máscara do Anonymous, como aparece nos site da Condal, está longe de bater o recorde de popularidade alcançado pela do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, durante o julgamento do mensalão, quando foram comercializados 25.000 adereços. O número também foi alcançado pelas máscaras do ex-presidente Lula e pelo terrorista Osama bin Laden.

A proprietária da fábrica, Olga Valles, alega que trabalha em um esquema semi-industrial: pinta as máscaras de forma artesanal e não tem estrutura para atender à exigência das empresas detentoras de direitos autorais para conceder a autorização. “Teríamos que vender 500.000 unidades e isso é uma missão impossível. Vender máscaras não é um negócio lucrativo a ponto de satisfazer a expectativa de vendas de grandes multinacionais, acostumadas com números astronômicos”, diz Olga.

Mercado – A notificação contra a Condal foi motivada por reclamação formal recebida pela Warner da empresa brasileira com quem tem contrato exclusivo para a fabricação e venda de fantasias de seus personagens. Oficialmente, a Warner se abstém de conotações politicas atribuídas a V de Vingança e nega qualquer iniciativa no sentido de usar as manifestações para aumentar os lucros com a venda da máscara. “A Warner pouco entende como o personagem está ligado aos protestos. Foi uma reação espontânea do consumidor que nos surpreendeu”, diz Marcos Bandeira de Mello, gerente-geral da divisão da Warner Bros. Consumer Products no Brasil.

A surpresa, segundo Mello, é porque o herói anarquista figura como lanterninha na lista de prioridades da Warner no cronograma de divulgação. Os esforços da empresa estão direcionados à promoção de produtos licenciados do Super-Homem, por causa da estreia do filme O Homem de Aço, prevista para 12 de julho nos cinemas brasileiros.

Segundo o empresário Kiko Smitas, proprietário da Sulamericana, empresa que tem contrato de exclusividade com a Warner para fabricar fantasias no Brasil, o prejuízo com a pirataria das máscaras de V de Vingança é de 100%. “Nossos produtos passam por certificações que garantem a segurança dos componentes químicos. Nesse sentido, a pirataria é mais ágil e coloca o produto com mais velocidade no mercado”, diz Smitas.

Para ter a licença de distribuição de fantasias de V de Vingança, a Sulamericana tem que cumprir a exigência de produzir, por ano, 1.000 peças de vestuários e 2.500 máscaras avulsas. O estoque que normalmente duraria até o próximo ano, deverá ser reposto.

 

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