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Fogos de artifício e como preparar crianças/adolescentes com TEA para a virada do ano

 

por Dra. Deborah Kerches*

 

A virada do ano está aí. E, por mais que, neste ano, por conta da pandemia, a recomendação seja para comemorações íntimas, as mudanças da rotina e os acontecimentos desse evento podem afetar as crianças e os adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) por diferentes motivos.

Entre as particularidades dessa condição estão as alterações sensoriais, que se apresentam em muitos casos como hipersensibilidade a estímulos do ambiente. Por isso, os fogos de artifícios especialmente, muito comuns na virada de ano, se configuram como um grande incômodo para a maioria das pessoas que estão no espectro autista, devido ao intenso estímulo auditivo e visual que proporcionam.

Esses, entre outros fatores – que variam muito de acordo com as particularidades de cada criança e adolescente com TEA e, também, dos hábitos da família –, podem desencadear “crises” com comportamentos inapropriados, como irritabilidade extrema, gritos e até comportamentos auto e heteroagressivos.

Como agir?

Mas, então, como agir para amenizar esses possíveis incômodos e garantir que a criança/o adolescente com TEA e sua família vivenciem da melhor forma a virada do ano? Seguem algumas orientações:

  1. Previsibilidade e uso de pistas visuais

No dia 31 de dezembro, vale criar um quadro visual com todos os acontecimentos do dia. Por exemplo: imagens da criança/do adolescente tomando banho, colocando a roupa, entrando no carro, chegando ao local da comemoração e vendo os familiares (ou, se for o caso, recebendo os familiares em casa).

  1. Prezar por um ambiente seguro, tranquilo e acolhedor

Estamos em meio a uma pandemia. Por isso, a orientação para esse fim de ano é clara: não fazer aglomerações (reunir apenas a família próxima), usar máscaras e seguir com medidas de higiene e distanciamento reforçadas.

Além disso, é importante que a criança/o adolescente esteja em um local acolhedor e tranquilo, entre pessoas que já conhece.

  1. Preparar o ambiente e a criança/adolescente para os momentos de fogos

Antecipadamente, tentem preparar a criança ou adolescente explicando o motivo (dizendo, por exemplo, “todos ficam felizes com a chegada do novo ano”), mostrando imagens ou vídeos de fogos (sem o áudio ou com o volume bem baixo e tentar ir aumentando aos poucos, sempre respeitando a tolerância de cada um).

Em alguns casos, vale dar à criança ou ao adolescente tampões de ouvido ou um fone com músicas que ela/ele goste nos minutos anteriores à virada do ano. Outra opção é buscar um local mais isolado para os minutos dos fogos (por exemplo: um cômodo mais protegido da casa, o carro da família etc.).

Exercícios de respiração também podem ser bons aliados. Convide-a/o a respirar como você, lentamente.

  1. Estar preparados para eventuais mudanças de planos:

Talvez a criança/o adolescente não se sinta bem no local escolhido pela família para passar a virada do ano mesmo diante de tais estratégias. E isso deve ser reconhecido e tratado com respeito. Por isso, estejam preparados para voltar para casa, se for necessário, da forma mais natural possível, não deixando que isso se torne um estresse entre todos os envolvidos.

Essas são algumas dicas básicas, mas, vale lembrar que cada pessoa com TEA tem suas particularidades, e o essencial é que isso seja respeitado e levado em conta na hora de definir a programação da família. Dessa forma, proporcionamos que a criança/o adolescente sinta-se mais confortável para vivenciar esse momento ao lado dos que ama.

*Dra. Deborah Kerches é neuropediatra especialista em Transtorno do Espectro Autista; coordenadora e professora de pós-graduações do CBI of Miami; membro do conselho profissional da REUNIDA (Rede unificada nacional e internacional em defesa das pessoas com autismo); membro da Sociedade Brasileira de Neuropediatria, da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), da Academia Brasileira de Neurologia, da Associação Francesa La cause des bébés e da Sociedade Brasileira de Cefaleia. @dradeborahkerches