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Por Dennis Moraes
Nos últimos dias, Santa Bárbara d’Oeste sediou uma capacitação que debateu a adoção legal e a chamada entrega voluntária de crianças. O encontro reuniu autoridades do Judiciário, representantes da rede de proteção, profissionais da assistência social e outros setores envolvidos no sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente.
Sem dúvida, iniciativas como essa são importantes. Discutir o tema, fortalecer a rede de proteção e orientar profissionais sobre os procedimentos legais são passos necessários para evitar irregularidades e garantir que a adoção aconteça dentro da lei.
Mas existe uma diferença grande entre a teoria apresentada em palestras e a realidade vivida por quem passa pelo processo de adoção.
E eu falo com propriedade sobre isso.
Sou pai de três crianças adotadas.
Quando se discute adoção em ambientes institucionais, muitas vezes o foco fica concentrado no aspecto jurídico — que é, de fato, essencial. A burocracia existe para proteger as crianças e evitar crimes como a adoção ilegal, algo que infelizmente ainda acontece em alguns casos. O sistema precisa mesmo ser rigoroso.
Porém, na prática, o processo é muito mais complexo do que parece.
A adoção não depende apenas da vontade de quem deseja adotar. Existe também o perfil das crianças disponíveis, a situação jurídica de cada caso e uma longa tramitação judicial. Muitas crianças que estão em instituições de acolhimento ainda não estão liberadas legalmente para adoção porque seus processos continuam em análise na Justiça.
Esse detalhe, por exemplo, raramente aparece com a profundidade necessária nas apresentações técnicas.
Enquanto isso, crianças continuam crescendo dentro do sistema de acolhimento, aguardando definições judiciais que podem levar anos.
Outro ponto importante é que a adoção precisa partir de dois lados: do interesse das famílias adotantes e da realidade das crianças que aguardam uma nova família. Nem sempre essas duas pontas se encontram com facilidade.
Existe ainda algo que nenhuma palestra consegue explicar completamente: o cotidiano de uma família adotiva.
A adaptação, a construção de vínculos, os desafios emocionais, os medos, as descobertas e as alegrias que surgem nesse processo fazem parte de uma experiência profundamente humana.
Não é um procedimento burocrático. É uma construção de vida.
Por isso, quando se fala de adoção, talvez seja importante ouvir também quem vive essa realidade no dia a dia. Pais, mães e principalmente as próprias crianças adotadas têm histórias que ajudam a compreender melhor o que significa, de fato, formar uma família por meio da adoção.
A teoria é necessária.
Mas a prática é que revela as verdadeiras dimensões dessa experiência.
E essas histórias, muitas vezes, ainda precisam ser mais ouvidas.
Dennis Moraes é Comendador outorgado pela Câmara Brasileira de Cultura, Jornalista, Feirante e CEO do Grupo Dennis Moraes de Comunicação. Acesse: dennismoraes.com.br








