Imagem gerada por IA
Por Dennis Moraes
Não é de hoje que deixo claro meu distanciamento em relação ao Big Brother Brasil. E o que aconteceu na Prova do Líder do BBB 26 apenas reforçou, de forma dura e simbólica, tudo aquilo que esse formato representa — e, principalmente, aquilo que ele deixou de ser.
Durante a prova, o ator Henri Castelli sofreu crises convulsivas visíveis. A cena era clara, angustiante e impossível de ignorar. Ainda assim, em meio a gritos, alertas e tentativas de chamar a atenção da produção, apenas um participante saiu de sua posição para ajudá-lo, praticamente abrindo mão da disputa. Um. Todos os outros permaneceram imóveis, concentrados no jogo, no prêmio, na liderança, como se nada estivesse acontecendo a poucos metros de distância.
É aqui que a contradição salta aos olhos. O programa se chama Big Brother Brasil. “Grande Irmão”. Um nome que remete, ao menos em tese, à ideia de cuidado, vigilância mútua, solidariedade e convivência. Mas o que se viu foi exatamente o oposto. No momento em que ajudar o outro deveria ser um gesto automático, humano e inegociável, prevaleceu o silêncio, a inércia e o individualismo.
Quando vi essas imagens circulando nas redes sociais, a primeira reação foi de espanto: ninguém foi lá. Ninguém saiu. Ninguém interrompeu a própria chance de vencer para socorrer alguém que claramente precisava de ajuda. E essa cena me trouxe imediatamente à memória um episódio histórico do automobilismo. Ayrton Senna, ao ver um piloto acidentado à sua frente, reduziu, deu a volta, parou o carro e desceu, colocando a própria vida em risco para ajudar o próximo. Aquilo não era estratégia. Era caráter.
É evidente que estamos falando de contextos diferentes. Mas os valores — ou a ausência deles — são universais. O que vimos no BBB não foi apenas um reflexo de um jogo, mas de uma lógica ensinada, reforçada e normalizada diariamente: vencer a qualquer custo. Não ajudar. Não olhar para o lado. Não se comprometer. Pensar apenas em si mesmo.
Essa é a mensagem que a televisão ensina. Que a mídia reforça. Que a chamada “massa de manobra” absorve e reproduz. Faça suas escolhas para se dar bem, custe o que custar. Mesmo que isso signifique ignorar o sofrimento do outro. Mesmo que isso signifique “derrubar” quem está ao seu lado. Ou, ironicamente, derrubar o seu próprio “grande irmão”.
Depois, com mais calma, analisando as imagens, fica claro que nada de diferente poderia acontecer ali. Se tivesse acontecido, seria exceção. Surpresa. Porque o padrão já está estabelecido. Todos querem ser vencedores. E, nesse modelo de sociedade e de entretenimento, a empatia se torna um obstáculo, não um valor.
É por isso que eu não gosto do Big Brother Brasil. Não pelo formato em si, mas pelo espelho que ele insiste em mostrar — e que muitos ainda fingem não enxergar.
Dennis Moraes é Comendador outorgado pela Câmara Brasileira de Cultura, Jornalista, Feirante e CEO do Grupo Dennis Moraes de Comunicação. Acesse: dennismoraes.com.br








