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24horas Opinião

Do multilateralismo ao discurso nacionalista

Por Cássio Faeddo

 

No decorrer da história o pêndulo das relações internacionais ora oscila para o multilatelarismo ora para a soberania das nações e nacionalismo. Mas para qual lado oscila nesse momento?  Teria a Covid-19 empurrado definitivamente o mundo para o nacionalismo, o que já era uma tendência com o Brexit, com a política Trump, e a ascensão da direita na Europa?

Durante os anos 80 e 90 do Século XX buscou-se maior interação entre os países, o que ocorreu por meio de acordos multilaterais ou mesmo acordos em blocos. Em decorrência desta tendência, globalização como sistema econômico, União Europeia, Mercosul, Nafta, Unasul, dentre outras organizações e expressões, passaram a ser comumente citadas pelos atores internacionais.

Porém, já no Século XXI, a globalização parecia apresentar efeitos indesejáveis para muitos adeptos da soberania nacionalista, e porque não dizer, do protecionismo. Ocorre que os empregos migravam rapidamente para a Ásia, especialmente para a China, além das questões migratórias que atingiam Europa e Estados Unidos, principalmente.

O que fazer quando os empregos caminharam forte para a Ásia e a migração chega a Europa e Estados Unidos com força?

Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, os ataques ao World Trade Center, dentre outros alvos, trouxeram eventos do Oriente Médio para os EUA, algo inimaginável para o norte-americano médio.

E mais, os empregos nos anos seguintes foram absorvidos pela China, restando aos norte-americanos e europeus parcela expressiva de migrantes.

O número de migrantes internacionais aumentou mais rápido do que o crescimento da população, de acordo com as Nações Unidas. Com isso, a quantidade de migrantes totaliza 3,3% da população global em 2015, enquanto em 2000 somavam 2,8%.

No entanto, há diferenças nas regiões do mundo: na Europa, América do Norte e Oceania, os migrantes são pelo menos 10% da população; na África, Ásia e América Latina e Caribe, menos de 2% são estrangeiros.

Empobrecimento da classe média norte-americana e insatisfação crescente dos eleitores, conduziram ao surgimento de governos voltados a defesa da soberania e dos bons tempos passados.

Na ONU, em 2017, o presidente Trump, assim discursava:

Nós não esperamos que países diversos compartilhem as mesmas culturas, tradições e nem sequer os mesmos sistemas de governos. (…) Nações fortes, soberanas, permitem que países diversos, com valores diferentes, culturas diferentes e sonhos diferentes, não apenas coexistam mas trabalhem lado a lado na base do respeito mútuo.

Sendo os EUA a maior potência econômica e militar do globo, qualquer passo dado é replicado pelos diversos atores internacionais.

Wilson Accioli (1985) ensina que os autores tendem a conferir ao vocábulo soberania a procedência latina medieval superanus, com valor comparativo, em seguida numa escala gradativa, de superlativo absoluto, na conceituação supremitas, apresentando invariavelmente o significado superior. E ainda, a expressão suprema potestas, como traduzindo autoridade máxima.

Ou seja, nada acima do Estado é uma máxima da soberania.

Sorensen e Jackson (2018) explicam que apesar das posições liberais de Wilson e Angell, fundamentadas na crença de que os homens são racionais, e que quando esta razão é aplicada às relações internacionais estabelecem organizações que podem trazer benefícios a todos, houve a guerra. Nas organizações internacionais dos anos 20 do Século XX, essas ideias obtiveram sucesso, mas foram enfraquecidas por ditaduras e autoritarismo.

Assim, governos autoritários, tratado pós-guerra sufocante, e a própria tradição isolacionista dos EUA fizeram o mundo voltar ao palco da guerra.

Em “ As origens do totalitarismo”, Hanna Arendt alerta, ao expor o ambiente que antecedeu a 2ª Guerra Mundial:

“(…) a própria expressão “direitos humanos” tornou-se para todos os interessados – vítimas, opressores e espectadores – uma prova de idealismo fútil ou de tonta e leviana hipocrisia.”

E, sem dúvida, vivemos momentos no ocidente de ataques e enfraquecimento das instituições, e a desconfiança dos cidadãos é alimentada por torrente de informações, muitas delas falsas ou distorcidas, visando confrontar e definir um inimigo comum. Muitas vezes o inimigo comum será o que pensa diferente e também aquilo que vem de fora.

Sociedades que convivem com escassez é palco ideal para populismo e autocracia.

Eventual vitória de Joe Biden em 2020 não deverá trazer acentuada distensão ao sentido de protecionismo norte-americano, pois o novo governo será pressionado pelo realismo que se impõe. Talvez represente um alívio ao sistema de freios e contrapesos dos EUA nunca antes tão atacado como na Era Trump.

A questão migratória, a guerra comercial com a China, a queda da classe média, a questão ambiental, os efeitos econômicos e sociais da pandemia, conduzirão a pauta do nacionalismo para 2021, e ao final, devem reforçar o caminho para o nacionalismo.

 

Cássio Faeddo

Advogado. Mestre em Direito. MBA em Relações Internacionais – FGV/SP.