
Levantamento do IPIE/UFPR revela que casas de apostas representam menos de 6% das receitas de 16 clubes brasileiros; pesquisa mostra que o futebol tem condições de sobreviver sem esses patrocínios e alerta para problemas de gestão e endividamento
As casas de apostas se tornaram as maiores patrocinadoras do futebol brasileiro, mas representam apenas 5,8% da receita dos principais clubes do país. Mesmo com a entrada de centenas de milhões de reais desses contratos, o endividamento continuou crescendo. Entre 2022 e 2025, as dívidas de 15 clubes analisados passaram de R$ 9,6 bilhões para R$ 14,8 bilhões, um aumento de R$ 5,2 bilhões. Os números fazem parte de um levantamento do Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva (IPIE), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que analisou as finanças de 16 clubes brasileiros entre 2019 e 2025.
O estudo traz novos elementos para o debate sobre a proibição das apostas esportivas no Brasil, prevista na Medida Provisória nº 1.394/2026. Embora os clubes tenham manifestado preocupação com a perda dos contratos publicitários, os dados indicam que os recursos provenientes das bets estão longe de ser indispensáveis para a sustentação financeira do futebol nacional.
Em 2025, as casas de apostas destinaram pelo menos R$ 784 milhões aos 16 clubes pesquisados, que registraram uma receita conjunta de R$ 13,5 bilhões. O valor representa aproximadamente um terço de todos os patrocínios, mas menos de 6% do faturamento total. Mesmo no Fortaleza, clube com maior participação das bets na receita, esse percentual chegou a 11,5%. No Corinthians, foi de 10,6%; no Palmeiras, 7,5%; e no Flamengo, 5,2%.
Para Fernando Mezzadri, coordenador-geral do IPIE, os números mostram que o debate precisa considerar também as consequências sociais das apostas. “Esse é um tema que precisa ser enfrentado imediatamente. Os dados estão mostrando o grande problema de endividamento das pessoas, mas não é só isso: o debate precisa ser ampliado no aspecto da saúde pública, na gestão sustentável dos clubes de futebol, no jogo responsável e na prevenção aos transtornos de jogo patológico, causados pelas bets. Por isso, entendemos que o futebol não vai acabar e que a medida foi necessária”, afirma.
Mais dinheiro, mais dívidas
Um dos principais resultados do levantamento é que o crescimento das receitas não foi acompanhado por uma redução do endividamento. Entre 2022 e 2025, a receita dos clubes aumentou 106%, enquanto as despesas operacionais avançaram 103%. Em 2025, dez dos 16 clubes analisados apresentaram déficit operacional, apesar dos valores recordes arrecadados.
Dos 13 clubes para os quais foi possível identificar os valores dos contratos com bets, 12 terminaram 2025 com dívidas superiores às registradas em 2022. O Corinthians, por exemplo, passou de R$ 910 milhões para R$ 2,4 bilhões em dívidas no período. No Atlético-MG, o endividamento chegou a R$ 2,3 bilhões, enquanto o Botafogo registrou R$ 1,6 bilhão.
O estudo também mostra que o crescimento das receitas do futebol brasileiro tem outras fontes importantes. Entre 2022 e 2025, as vendas de atletas responderam por 36% do aumento do faturamento, enquanto direitos de transmissão e premiações representaram 26%. As bets contribuíram com aproximadamente 11% desse crescimento.
Para o coordenador técnico do IPIE e presidente da Associação Brasileira de Gestão do Esporte (Abragesp), João Moretti, o levantamento evidencia a necessidade de aprimorar a administração financeira dos clubes.
“Os dados mostram que o futebol brasileiro não depende das bets para existir. É óbvio que perder cerca de 6% da receita vai doer. Mas a dívida dos clubes cresceu justamente quando esse dinheiro chegou. O problema não é a perda de patrocinadores, mas o que se faz, ou se deixou de fazer, com a receita gerada por eles. O grande problema do futebol brasileiro não é falta de dinheiro. É falta de gestão”, afirma.
Futebol tem outras fontes de financiamento
Em 2025, os direitos de televisão e as premiações representaram 31% da receita dos clubes pesquisados, seguidos pela venda de atletas, com 29%. Patrocínio e publicidade, incluindo as bets, responderam por 17%, enquanto a bilheteria representou 5%. O restante veio de fontes como programas de sócio-torcedor, licenciamento de marcas e exploração de estádios.
Outro dado relevante é que os patrocínios de empresas de outros setores também cresceram significativamente. Entre 2022 e 2025, os demais patrocinadores acrescentaram R$ 714 milhões às receitas dos clubes, valor próximo aos R$ 730 milhões provenientes da expansão dos contratos com casas de apostas.
O levantamento aponta, portanto, a possibilidade de substituição de parte dos patrocínios das bets por empresas de outros segmentos. Também destaca a necessidade de medidas de equilíbrio financeiro, maior transparência nas demonstrações contábeis e planos efetivos de redução das dívidas.
Na avaliação dos pesquisadores, a discussão sobre o futuro do futebol brasileiro deve considerar a sustentabilidade financeira dos clubes e os impactos das apostas sobre a sociedade. Os dados não estabelecem uma relação direta de causa e efeito entre a chegada das bets e o aumento das dívidas, mas mostram que a expansão desses patrocínios não produziu uma redução visível do endividamento.
Sobre o levantamento
A pesquisa do Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva (IPIE/UFPR) analisou demonstrações financeiras, receitas, despesas, patrocínios e endividamento de 16 clubes brasileiros entre 2019 e 2025: Athletico-PR, Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Ceará, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Fortaleza, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco da Gama.
Foram utilizadas demonstrações financeiras dos clubes, informações públicas sobre contratos de patrocínio, estudos da Sports Value e dados de inflação do IBGE. O total de R$ 784 milhões em patrocínios de bets representa um valor mínimo identificado, pois não foi possível obter os valores dos contratos de três clubes em 2025.







