
O debate promovido pela TV Globo entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) foi marcado por forte reação do atual presidente após declaração de seu oponente. Flávio declarou que o chefe do Executivo “dá com uma mão e tira com nove dedos”. Lula teve o dedo mínimo da mão esquerda amputado em decorrência de acidente de trabalho como torneiro mecânico no ano de 1964, quando tinha 17 anos de idade.
“Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de nove dedos. Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos, não vou permitir! Você vai ter que pedir desculpa. Porque o povo trabalhador está vendo. Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal que obriga a gente a trabalhar em jornada que a gente tem que ir trabalhar”, afirmou o petista.
Na sequência, Flávio Bolsonaro formulou pedido de desculpas. “Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender. Peço desculpa de verdade”. O confronto verbal prosseguiu com novas críticas do candidato do PL à gestão federal, exigindo que o mandatário também se retratasse perante a sociedade. “Agora eu quero saber se você vai pedir desculpas os moradores de rua que dobraram diante do seu governo. E combate a pobreza esse que você faz?”, questionou o parlamentar, que igualmente rechaçou a pecha de miliciano utilizada por Lula contra sua pessoa.
Conforme estatísticas divulgadas pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, o quantitativo de indivíduos nessa condição atingiu 365,8 mil em dezembro de 2025. O levantamento aponta acréscimo de 55% em comparação ao ano de 2022, distanciando-se do patamar de 100% citado por Bolsonaro.
Apesar disso, especialistas ponderam que a expansão dessa parcela populacional pode guardar relação com variações metodológicas de apuração, aprimoramento na busca ativa e a inserção de pessoas vulneráveis em programas de assistência social, sem que o montante integral reflita o surgimento de novos casos de rua.
Políticas sociais
Lula interpelou Flávio Bolsonaro a respeito de seu voto contrário à extensão da licença-maternidade durante o exercício do mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro. Flávio admitiu o posicionamento anterior e declarou alteração de entendimento:
“Eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego, eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca, eu sei da importância da mãe estar perto do filho, por até mais de 180 dias se possível.”
Lula contestou a justificativa e sustentou que o concorrente evitou resposta direta ao questionamento. O presidente igualmente reprovou a forma depreciativa com que o adversário tratou o Bolsa Família no passado, resgatando postagens nas quais o programa foi classificado como “bolsa-farelo”. “É a falta de respeito com o povo pobre desse país”, rebateu Lula.
Em tréplica, o representante do Partido Liberal garantiu a manutenção e o fortalecimento das iniciativas de transferência de renda, com destaque para o Bolsa Família.
Endividamento
Em outra etapa do segmento, Flávio demandou esclarecimentos de Lula sobre o endividamento das famílias e as contas públicas, responsabilizando a atual administração pela alta taxa de juros e pelo agravamento das condições financeiras da população. Como réplica, o presidente apontou a política monetária conduzida pelo Banco Central como cerne da questão e apontou a expansão econômica como alternativa para o saneamento das dívidas.
“Lula, por que que você está deixando as famílias brasileiras tão endividadas? Já que uma vez que a dívida governo cresce, a dívida das famílias cresce junto”, disse Flávio, que ainda citou uma dívida de R$ 11 trilhões. O número foi uma referência à Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) do Brasil, medida e pelo Banco Central.
O postulante ao cargo máximo do Executivo sinalizou que, caso vença o pleito, pretende acionar a Caixa Econômica Federal para efetuar a aquisição e o refinanciamento dos débitos bancários dos cidadãos.
Posteriormente, Lula argumentou que idêntico plano de renegociação já havia sido protocolado pelo seu governo no Senado Federal. “Ele tá copiando uma coisa que eu já mandei pro Senado”. O chefe de Estado pontuou que o governo executou ações voltadas à quitação e perdão de débitos, citando transação da ordem de R$ 15 bilhões que abrangeu 4,5 milhões de pessoas.
SUS
Noutro trecho do bloco, Lula inquiriu Flávio Bolsonaro acerca de declarações atribuídas a assessor econômico de sua campanha sobre a perspectiva de corte de investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). O presidente também direcionou críticas à condução sanitária adotada no período da pandemia sob o governo Bolsonaro.
“Como é que você quer melhorar a saúde desse país negando o plano de saúde mais importante que tem em qualquer país com mais de 100 milhões de habitantes?”, perguntou Lula. Lula também criticou a gestão da pandemia durante o governo Bolsonaro e mencionou as mortes por covid-19.
“O SUS é o responsável por evitar que morresse mais gente da covid depois da responsabilidade do governo do pai dele”. Na sequência, mencionou declarações de Bolsonaro sobre vacinação e criticou a falta de organização de uma resposta baseada em especialistas.
Em contrapartida, Flávio assegurou o respaldo financeiro e a expansão da rede pública, embora tenha desaprovado a administração vigente, as filas de atendimento e os mecanismos de custeio setorial.
“O tesouraço vai ser na corrupção do atual governo, o tesouraço vai ser na burocracia, o tesouraço vai ser nos impostos que você deu, foram mais de 30 que você criou ou aumentou”, afirmou. O candidato ainda afirmou que as Santas Casas estariam endividadas e falou em aumentar a tabela de procedimentos do SUS.







