Divulgação / Thaís Vieira de Souza
Por Thaís Vieira de Souza
O Brasil é a última coca gelada do deserto, mas parece não saber disso. Ou melhor, insiste em não acreditar nisso.
Essa descrença no futuro é fruto da cultura do imediatismo, um comportamento que tem raízes em nossas origens. Nunca sofremos com intermináveis e rigorosos invernos, terremotos ou grandes guerras. Para garantir a sobrevivência, bastava plantar 365 pés de mandioca. E talvez essa seja a nossa “maldição”!
Nos países do Hemisfério Norte, onde há neve e guerras, as pessoas precisam desenvolver estratégias de sobrevivência; pensando e decidindo racionalmente, desenvolvem naturalmente uma cultura de planejamento no longo prazo. Não por acaso, são sociedades mais ricas do que nós.
O pensamento a longo prazo oferece mais soluções e oportunidades do que o imediatismo. Em clima de urgência, não temos controle do processo decisório e fazemos más escolhas.
A cultura do imediatismo molda nossas crenças negativamente, e passamos a desacreditar em dias melhores. Simplesmente nos contentamos em trocar o banquete de um futuro brilhante por migalhas no presente.
Hoje, no Brasil, a educação é, de longe, a maior vítima do imediatismo, pois exige 10 ou 15 anos de sacrifícios contínuos antes que tenhamos a chance de desfrutar dos primeiros benefícios por ela proporcionados.
Sem educação de qualidade, não há ganhos de produtividade; sem eles, não há crescimento econômico ou aceleração sustentável de prosperidade.
O imediatismo nos leva a sermos exportadores de commodities, ao invés de pensarmos neste processo estrategicamente.
Somos os maiores exportadores mundiais de mais de uma dezena de commodities, tais como: grãos, açúcar, café, carnes, fumo e celulose. Se agregássemos valor a estas mercadorias e aos recursos turísticos naturais inigualáveis que temos, essa mudança dobraria nosso PIB em 20 anos.
Para tal, teríamos que acrescentar 2 a 3 milhões de técnicos à nossa força de trabalho. Isso requer aumento do desempenho educacional.
Somos um dos últimos grandes países que ainda não passou pelo ciclo de crescimento educacional. Os países que passaram pelo ciclo ganharam aproximadamente 25 anos de crescimento de 5% ao ano, apenas devido aos ganhos de produtividade.
Estudos americanos indicam que 80% dos nossos estudantes não atingem o nível básico do PISA em leitura e matemática. Se atingíssemos esse patamar, acrescentaríamos US$ 27 trilhões à nossa economia até o fim deste século.
Precisamos começar a alinhar os interesses imediatistas dos nossos estudantes com os interesses de longo prazo do nosso potencial econômico. Nem que seja pagando para que tirem melhores notas!
Thaís Vieira de Souza é autora de “A maldição da mandioca”, uma ficção econômica que reflete sobre o futuro do país e analisa as dificuldades culturais que impedem o desenvolvimento do Brasil.








