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Assim como a febre, hipotermia pode ser defesa natural do organismo durante infecção

Redação 3 de dezembro de 2019 4 minutes read
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Em estudos realizados em pacientes com sepse (inflamação sistêmica que pode ocorrer em decorrência de infecções) foi observado que a febre e a hipotermia são respostas naturais, transitórias e autolimitantes do corpo – Foto capa: Katrina_S via Pixabay

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Febre ajuda a eliminar organismos causadores de doenças; hipotermia ajuda a tolerar os danos causados por eles

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP propôs uma nova forma de ver a sepse, inflamação sistêmica potencialmente fatal que pode ocorrer em decorrência de infecções. O artigo, publicado recentemente na revista Trends Endocrinol Metab, aborda a existência de duas estratégias de defesa contra infecções que são opostas, porém, complementares.

Em uma dessas estratégias, a febre nos ajuda a eliminar patógenos, os organismos causadores de doenças (resistência). Na outra, uma redução na temperatura corpórea, denominada hipotermia, nos ajuda a tolerar os danos causados pelos microrganismos (tolerância).

Em estudos realizados em pacientes com sepse no Hospital Universitário (HU) da USP, foi observado que ambas são respostas naturais, transitórias e autolimitantes do corpo – ou seja, assim como a febre, a hipotermia também é regulada e coordenada pelo sistema nervoso central.

Alexandre Steiner, docente responsável pela pesquisa, estuda o tema há quase 20 anos e afirma que toda resposta imune de ataque tem um dano colateral. “Se o custo desse dano colateral é muito alto, o organismo acaba optando por tolerar temporariamente o patógeno com o auxílio da hipotermia, enquanto cria condições para voltar a combatê-lo com o auxílio da febre”, diz. Por esse motivo, os pacientes analisados apresentaram variações de temperatura, mas geralmente de forma regulada. Em humanos, a febre costuma ser limitada a 39ºC ou 39,5ºC, e a hipotermia se estabiliza entre 34ºC e 35ºC. O paciente volta à temperatura “normal” sozinho.

O conceito de valores “normais” também foi questionado durante os estudos. Segundo Steiner, no caso de pacientes com infecção, estamos lidando com “novos normais” – valores de referência de temperatura que o indivíduo infectado precisa para lidar com mudanças no funcionamento do seu organismo. Em outras palavras, manter a temperatura a 36,5ºC não é normal para um indivíduo infectado; o “novo normal” é ter febre inicialmente e, se a condição se agravar, hipotermia.

Uma série de testes realizada pelo grupo em ratos e camundongos demonstrou que, quando a infecção era gravíssima e havia desenvolvimento de hipotermia, o aquecimento forçado aumentava a mortalidade. Por outro lado, se a infecção é menos grave e há febre, existem evidências de que o resfriamento pode aumentar a mortalidade. “É um equívoco achar que a eliminação da febre ou da hipotermia melhora o quadro infeccioso, mesmo que dê a falsa impressão de um retorno à normalidade”, explica o pesquisador.

 

O professor Alexandre Steiner, no centro da foto, e seu grupo de pesquisa – Foto: Reprodução/Assessoria de Comunicação do ICB

O caráter regulador da febre se apresenta no próprio comportamento do indivíduo – quando estamos com febre, sentimos frio e procuramos um ambiente mais quente. Em outros testes, quando os ratos vão desenvolver hipotermia durante a infecção, eles buscam um ambiente frio para ajudar a diminuir a temperatura. “Como a febre, a hipotermia nesses casos parece ser um processo ativo do sistema nervoso central, que faz com que a temperatura caia naturalmente.”

Para Steiner, o trabalho representa um importante ganho conceitual, que aborda o sistema imune como uma parte inseparável dos sistemas fisiológicos e não como um sistema independente. Além disso, muda a forma de entender as doenças infecciosas graves, propondo uma visão individualizada para cada indivíduo. “Pacientes em situações diferentes poderão se beneficiar mais da febre (resistência) ou da hipotermia (tolerância), ou ainda de uma alternância entre um estado e outro. Se continuarmos a procurar terapias que funcionem para todos em um grupo heterogêneo de pacientes, nossas opções ficam muito limitadas.”

Por Aline Tavares / Assessoria de Comunicação do ICB

Fonte: Jornal USP

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