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Por Dennis Moraes
A cada ciclo eleitoral no Brasil, um fenômeno curioso — e preocupante — volta a ganhar força: o surgimento dos chamados “candidatos folclóricos”. São figuras que aparecem do nada, muitas vezes sem trajetória política, sem propostas consistentes e, ainda assim, conseguem atenção, votos e, em alguns casos, até mandatos.
Não é novidade. Em 2022, o cenário já escancarava essa tendência. Ao lado de nomes tradicionais, surgiram celebridades, influenciadores e candidatos com apelidos inusitados ou campanhas baseadas no humor e na viralização. De figuras conhecidas como lutadores, jornalistas e artistas até candidatos com nomes como “Maria Vai com as Outras” ou “Sonic Motoboy”, a disputa virou, em muitos casos, um verdadeiro desfile de personagens.
Mas o problema vai além da curiosidade.
Por que esses candidatos continuam surgindo — e pior, recebendo votos?
A resposta passa por um fator central: a superficialidade com que parte do eleitorado encara a política. Em um país onde o voto é altamente personalista, muitos escolhem pelo nome, pela fama ou pela identificação momentânea, e não por propostas ou preparo.
Hoje, com o avanço das redes sociais, esse fenômeno ganhou uma nova camada. Não se trata mais apenas do “palhaço” ou do “personagem excêntrico”. Estamos falando de influencers, criadores de conteúdo e figuras midiáticas que transformam popularidade digital em capital político — muitas vezes sem qualquer compromisso com políticas públicas.
São os “novos Tiriricas”, os “novos virais”, os candidatos que surgem embalados por memes, cortes de vídeo e engajamento — mas que, na prática, pouco ou nada apresentam de concreto para a sociedade.
E aqui está o ponto crítico: esses nomes não apenas participam do processo. Eles interferem nele.
Ao capturar votos pela curiosidade, pelo humor ou pelo alcance digital, acabam tirando espaço de candidatos preparados, com histórico, propostas e compromisso real com a população. Não é apenas uma questão de gosto eleitoral — é uma distorção do próprio debate democrático.
A política vira entretenimento.
A eleição vira palco.
E o voto… vira consequência de impulso.
É evidente que qualquer cidadão tem o direito de se candidatar. Isso é a essência da democracia. Mas o eleitor também tem o dever de entender o peso da escolha que faz.
Porque no fim das contas, não existe voto “inofensivo”.
O voto que parece brincadeira pode eleger alguém despreparado.
O voto por impulso pode fortalecer estruturas que o eleitor nem compreende.
E o voto no “personagem” pode custar caro — para todos.
Estamos às portas de mais um ciclo eleitoral, e os primeiros sinais já aparecem: novos nomes, novos rostos, novas “pérolas” surgindo nas redes e tentando transformar engajamento em voto.
A pergunta que fica é simples — e urgente:
até quando vamos tratar a política como entretenimento?
Porque enquanto o eleitor não levar a eleição a sério…
sempre haverá alguém disposto a transformá-la em espetáculo.
Dennis Moraes é Comendador outorgado pela Câmara Brasileira de Cultura, Jornalista, Feirante e CEO do Grupo Dennis Moraes de Comunicação. Acesse: dennismoraes.com.br








