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Por Dennis Moraes
O Brasil sempre foi um país da jogatina. Jogo do bicho, Mega-Sena, Tele Sena, bingos e outras modalidades fazem parte da cultura popular há décadas. Existe, porém, uma diferença importante entre o jogo tradicional e o fenômeno das bets: durante muito tempo, para grande parte dos brasileiros, a aposta era feita com aquele dinheiro que sobrava. Com as plataformas digitais, o jogo passou a estar disponível 24 horas por dia, na palma da mão, e a aposta começou, em muitos casos, a ser tratada como uma possível solução para problemas financeiros.
Faltou dinheiro para pagar uma conta? Aposta. Faltou dinheiro para o supermercado? Aposta. Perdeu? Aposta novamente para tentar recuperar. É nesse ponto que, na minha avaliação, está um dos maiores problemas desse mercado: a transformação da aposta em uma promessa de dinheiro rápido, justamente para quem muitas vezes já não tem dinheiro sobrando.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa atividade. Dados preliminares do Ministério da Fazenda mostram que os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas casas de apostas autorizadas em 2025. Desse total, R$ 183,7 bilhões retornaram aos apostadores em prêmios e bônus sacáveis, enquanto R$ 36,9 bilhões ficaram como receita bruta das empresas. Ou seja, não foram R$ 220 bilhões perdidos, mas estamos falando de quase R$ 37 bilhões correspondentes ao saldo negativo dos apostadores no mercado regulado.
Não é possível afirmar que todo apostador terá problemas financeiros, evidentemente. Mas também não dá para ignorar os sinais de alerta. Uma pesquisa do Procon-SP apontou que 39,7% dos apostadores entrevistados disseram ter se endividado depois que começaram a utilizar sites de apostas. O levantamento não representa automaticamente todos os apostadores brasileiros, mas mostra que existe uma relação que precisa ser discutida com seriedade.
Minha posição sobre as bets nunca foi favorável, principalmente quando elas passaram a ocupar espaço central no futebol. Desde o início, fui contrário à transformação dos clubes, camisas, transmissões e publicidade esportiva em vitrines permanentes para as apostas. Não porque eu seja contra patrocínio ou investimento no futebol, mas porque considero problemática a associação direta entre o esporte e um mercado que depende da disposição das pessoas em colocar dinheiro em risco.
E há uma preocupação adicional: a integridade das competições. Isso não significa acusar clubes, jogadores ou árbitros de manipulação de resultados sem provas. Seria irresponsável fazer isso. Mas também é impossível ignorar que quanto maior o volume de dinheiro apostado em resultados, cartões, escanteios e outros acontecimentos de uma partida, maior precisa ser a preocupação com fiscalização e integridade. A própria legislação que regulamentou o setor estabeleceu mecanismos de prevenção à manipulação de resultados.
Agora, a Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, mudou completamente o cenário. O governo federal proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A medida tem força imediata, mas ainda será analisada pelo Congresso Nacional.

Nesse ponto, faço uma ressalva. Se existem contratos de patrocínio firmados legalmente entre clubes e empresas de apostas, considero que deveria haver uma transição capaz de permitir a conclusão desses compromissos dentro dos limites jurídicos. Não porque eu defenda a permanência das bets no futebol, mas porque o futebol brasileiro já incorporou essas receitas aos seus orçamentos. Há clubes altamente endividados que dependem de receitas comerciais para manter o caixa funcionando. Se esse dinheiro desaparecer de uma hora para outra, será necessário encontrar outra fonte de financiamento. E os clubes terão de se reorganizar.
Isso, porém, não pode ser argumento para manter indefinidamente um modelo de negócio. Clubes, empresas e também o próprio mercado terão de se adaptar.
Há ainda uma discussão econômica que precisa ser feita com cuidado. Não é correto afirmar que todo o dinheiro das bets vai para o exterior. Para atuar legalmente no mercado regulado, os operadores precisam ser constituídos segundo a legislação brasileira, com sede e administração no país. Isso não elimina a existência de grupos de capital estrangeiro nem encerra a discussão sobre lucros, distribuição de recursos ou eventuais remessas, mas exige que esses números sejam analisados com precisão, empresa por empresa.
O que pode ser discutido, e muito, é quanto dinheiro das famílias deixou de ser destinado ao consumo, à quitação de dívidas ou à formação de uma reserva financeira para ser colocado em apostas. Essa é uma conta que não pode ser ignorada quando se fala dos efeitos econômicos das bets.
Também existe o problema do mercado clandestino. A proibição das plataformas autorizadas não elimina automaticamente a vontade de apostar. Se o usuário simplesmente migrar para sites ilegais, o Estado terá pela frente um problema ainda mais difícil: fiscalizar empresas que operam fora das regras brasileiras e proteger consumidores que estarão praticamente sem mecanismos de defesa.
Por isso, o debate não termina com a publicação de uma Medida Provisória. Se a proibição avançar, será necessário combater as plataformas clandestinas e, ao mesmo tempo, oferecer atendimento para quem desenvolveu comportamento problemático ou dependência em relação às apostas.
E é importante lembrar que essa história não começou agora. A modalidade de apostas de quota fixa foi criada pela Lei nº 13.756, de 2018 no governo Temer. Em 2023 no governo Lula, a Lei nº 14.790 estabeleceu um novo marco regulatório para o setor. O mercado regulado passou a operar em 2025. Portanto, a construção desse mercado atravessou diferentes governos e decisões do Congresso Nacional.
Agora, o governo Lula decidiu mudar novamente o caminho. A decisão será submetida ao Congresso, e caberá aos parlamentares discutir os efeitos econômicos, sociais e jurídicos da medida.
A minha opinião, entretanto, permanece a mesma: considero que a expansão das bets produziu uma relação perigosa entre aposta, orçamento familiar e futebol. O problema não está no brasileiro querer tentar a sorte. O brasileiro sempre tentou. O problema começa quando a aposta deixa de ser feita com o dinheiro que sobra e passa a ser feita com o dinheiro que falta.
Quando alguém aposta para pagar uma conta, recuperar uma perda ou resolver um problema financeiro, já não estamos falando apenas de entretenimento. Estamos falando de um ciclo que pode transformar uma dificuldade econômica em uma dívida ainda maior.
Por isso, não vejo as bets apenas como um mercado de entretenimento. Na forma como esse fenômeno se espalhou pelo Brasil, vejo um problema social que precisa ser enfrentado com responsabilidade.
O futebol terá de encontrar novas fontes de receita. As empresas terão de se adaptar. O mercado terá de se reorganizar. E o Estado terá de fiscalizar.
Mas, principalmente, precisamos parar de vender a aposta como caminho para uma vida melhor.
Porque dinheiro de almoço, aluguel, prestação, escola e supermercado não é dinheiro sobrando.
É dinheiro para viver.
Dennis Moraes é Comendador outorgado pela Câmara Brasileira de Cultura, Jornalista e CEO do Grupo Dennis Moraes de Comunicação. Acesse: dennismoraes.com.br







