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Suspensões da agência cresceram 72% em sete anos; leva recente inclui alvejantes sem registro, emagrecedor falsificado e lote adulterado de hormônio, e oftalmologistas alertam que parte irregularidade pode comprometer diretamente a saúde ocular
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fechou a última semana com uma sequência de decisões que expõe um problema crescente no mercado brasileiro, que é o comércio de produtos sem registro, sem controle de qualidade e, em muitos casos, de composição desconhecida. Segundo levantamento, as suspensões determinadas pela agência aumentaram 72% nos últimos sete anos, um indicativo de que a fiscalização tem encontrado, cada vez mais, itens irregulares circulando livremente entre consumidores.
Na quarta-feira, 12 de agosto de 2026, a Anvisa determinou a apreensão e proibiu a fabricação, a distribuição, a comercialização, a propaganda e o uso de 12 produtos de limpeza. Entre os itens, foram listados alvejantes, tira-manchas e soluções à base de percarbonato de sódio, fabricados e vendidos por empresas sem autorização de funcionamento. De acordo com a agência, nenhum dos itens possuía registro ou notificação sanitária, e a origem de fabricação era desconhecida.
Esse tipo de produto concentra um dos riscos oculares mais imediatos do mercado irregular. Alvejantes e soluções à base de percarbonato de sódio são agentes corrosivos, e o oftalmologista Ricardo Filippo, da COI Oftalmologia, reforça que efeitos colaterais graves podem aparecer mesmo em produtos que parecem banais no dia a dia e já estabelecidos no mercado. Em caso de contato acidental com os olhos, a lavagem imediata com água corrente é o que separa uma irritação passageira de uma lesão permanente na córnea.
Já na última semana, uma nova leva de medidas atingiu o setor de medicamentos e suplementos. A Anvisa apreendeu um lote falsificado do medicamento Nebido (à base de testosterona), usado em reposição hormonal masculina, e proibiu a comercialização do chamado “Ozempic Natural”, produto vendido sem qualquer registro e sem autorização para fabricar medicamentos. Na mesma resolução (3.055/2026), a agência proibiu os emagrecedores Slim Turbo Premium e Slim CPS Dourado Gold e todos os produtos à base de cannabis comercializados pela Associação Canábica Nordeste (Acanne), que operava sem autorização válida.
Esses casos se somam a uma lista muito mais extensa. O cadastro de “emagrecedores irregulares” da própria Anvisa reúne, só na atualização mais recente, centenas de produtos em cápsulas “queima-gordura” e chás “detox”, fórmulas manipuladas vendidas como tratamento para diabetes, colesterol e insônia.
Muitos desses itens já foram associados, em fiscalizações anteriores, à presença não declarada de substâncias como sibutramina (banida por risco cardiovascular) e corticoides, que não aparecem no rótulo e que, se usados de forma contínua e sem supervisão médica, estão entre as causas conhecidas de catarata precoce e glaucoma secundário.
Emagrecedores tipo Ozempic também são proibidos
O nome “Ozempic Natural”, produto banido pela Anvisa, tentava surfar na popularidade da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, hoje um dos medicamentos mais vendidos do mundo para diabetes e obesidade. É um fenômeno que se repete no formato de cápsulas, chás e fórmulas manipuladas vendidas como versões naturais ou caseiras de canetas emagrecedoras registradas, sem absolutamente nenhum controle sobre o que realmente contêm.
O Ozempic original, com registro na Anvisa, passou por estudos clínicos. Inclusive, um levantamento publicado em 2024 na revista científica JAMA Ophthalmology por pesquisadores de Harvard identificou uma possível associação entre o uso de semaglutida e a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NAION), condição rara que pode causar perda súbita e permanente da visão em um dos olhos.
Segundo o oftalmologista Ricardo Filippo, da COI Oftalmologia, é preciso estar atento aos efeitos colaterais de qualquer medicamento em uso. “A semaglutida pode reduzir a perfusão sanguínea na cabeça do nervo óptico, alterar a dinâmica dos fluidos oculares e a perfusão da retina, o que ajuda a explicar o mecanismo por trás dos casos já registrados decorrentes do uso de medicamentos, principalmente em casos sem acompanhamento médico”, explica Filippo.
O problema é que o “Ozempic Natural” apreendido pela Anvisa não é semaglutida; é um produto sem registro, de composição não avaliada por nenhum órgão regulador. Isso significa que o medicamento escapa completamente do tipo de vigilância pós-comercialização que permite identificar o sinal de alerta da NAION no medicamento original. Não se sabe o que a fórmula contém, em que dose, nem se carrega contaminantes ou substâncias associadas a outros riscos oculares, como corticoides não declarados.
“O grande risco desses falsos emagrecedores é o consumidor em questão não ter nenhuma ideia dos verdadeiros efeitos colaterais que os produtos comercializados realmente causam à sua saúde. Sem registro, sem estudo, sem bula, qualquer efeito sobre a saúde ocular pode passar despercebido até o dano já estar instalado, sem a possibilidade de algum tratamento para reverter doenças como a catarata”, alerta o Ricardo.
Produtos retirados de circulação
Diante do crescimento das ações de fiscalização, a orientação de especialistas e da própria Anvisa é evitar produtos sem registro sanitário visível na embalagem, desconfiar de fórmulas milagrosas vendidas em redes sociais e consultar a ferramenta pública de consulta de fiscalização antes de comprar itens de procedência duvidosa. Em caso de contato com produto químico com os olhos, a recomendação é a lavagem imediata com água corrente por pelo menos 15 minutos e a busca por atendimento oftalmológico de urgência.






