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O que acontece quando os números apresentados em um balanço oficial não encontram reflexo direto na realidade de quem depende diariamente do serviço público? A Audiência Pública da Saúde realizada nesta quarta-feira (25), no Plenário Dr. Tancredo Neves, evidenciou um cenário de forte contraste entre os dados apresentados pela administração municipal e os relatos de usuários e servidores do sistema.
Durante mais de três horas, representantes da Secretaria de Saúde detalharam os investimentos realizados em 2025. Segundo a prestação de contas, o município aplicou R$ 204.732.284,21 na área, o que corresponde a 31,36% da arrecadação de impostos — percentual superior ao mínimo constitucional de 15%.
A apresentação foi conduzida com números expressivos. O relatório aponta quase 400 mil procedimentos realizados na atenção básica e mais de 430 mil atendimentos em urgência e emergência ao longo do ano. No plano estatístico, o município apresenta desempenho robusto em volume de serviços e execução orçamentária.
Contudo, à medida que a audiência avançava, questionamentos técnicos começaram a tensionar o debate. Um órgão de imprensa presente levantou um dado que chamou a atenção: enquanto as transferências estaduais para a Saúde municipal cresceram de aproximadamente R$ 2,5 milhões em 2022 para mais de R$ 20 milhões em 2025, os investimentos municipais em assistência farmacêutica teriam diminuído no mesmo período.
Em 2022, cerca de R$ 9,4 milhões foram destinados à compra de medicamentos. Em 2025, o valor informado foi de R$ 4,5 milhões — uma redução superior a 50%. A Secretaria atribuiu dificuldades no abastecimento a entraves logísticos envolvendo o Estado, mas não detalhou, durante a audiência, as razões para a diminuição do montante municipal aplicado especificamente nessa rubrica.
Se os números geraram questionamentos técnicos, os relatos da população trouxeram um impacto ainda maior ao plenário.
Moradores relataram dificuldades para obtenção de medicamentos, insumos e procedimentos. Uma munícipe do Jardim Europa 4 descreveu o caso do irmão, portador de úlcera varicosa há mais de 15 anos, afirmando que a família precisa adquirir por conta própria materiais como bota de Unna para curativos. Segundo o relato, despesas com transporte e exames acabam sendo custeadas integralmente pela família.
Durante a transmissão ao vivo, internautas também relataram falta de medicamentos como Amiodarona e Codeína, além de espera prolongada por cirurgias eletivas e exames laboratoriais. Embora a Secretaria sustente que os números globais indicam alta produção de atendimentos, a percepção apresentada por parte da população é de dificuldades no acesso a serviços específicos.
Outro ponto de debate foi o Complexo Regional do Jardim Europa, inaugurado há menos de dois anos. Moradores relataram infiltrações, goteiras e problemas no sistema de climatização da sala de vacina. O secretário Marcus Pensutti reconheceu a existência de problemas estruturais e afirmou que há discussão judicial com a construtora responsável pela obra, o que, segundo ele, impacta intervenções imediatas.
Além das queixas dos usuários, servidores também utilizaram a tribuna para questionar decisões administrativas. Um funcionário relatou a retirada de gratificação de 10% anteriormente paga a profissionais que atuavam em setores considerados mais críticos, apontando desvalorização da equipe.
A audiência evidenciou dois retratos distintos da saúde municipal: de um lado, indicadores orçamentários acima do mínimo constitucional e volume expressivo de atendimentos; de outro, relatos de falhas no abastecimento, dificuldades de acesso e problemas estruturais em unidades.
O debate, portanto, vai além do percentual investido. A principal cobrança apresentada por munícipes e vereadores foi quanto à eficiência da aplicação dos recursos e à resolutividade do sistema.
Os R$ 204 milhões aplicados em 2025 representam um volume significativo de recursos públicos. O desafio colocado à gestão municipal é transformar esse investimento em atendimento efetivo, regularidade no fornecimento de medicamentos, manutenção adequada das unidades e valorização dos profissionais da rede.
A audiência não encerrou o debate — ao contrário, ampliou a discussão sobre a qualidade da gestão da saúde pública em Santa Bárbara d’Oeste. A população, ao que ficou demonstrado, quer mais do que números consolidados em relatórios: quer acesso garantido, atendimento resolutivo e serviços que funcionem na prática.








