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A baixeza humana

Redação 23 de setembro de 2019 4 minutes read
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Por Gaudêncio Torquato

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Peço licença às leitoras e leitores para substituir a análise sobre aspectos da política, objeto semanal deste espaço, por ligeiras linhas sobre o espírito do nosso tempo. Começo com o alerta de Nietzche no penhasco de Engadine, vale nos Alpes suíços, onde nos idos de 1880 fazia seu retiro:“Vejo subir a preamar do niilismo”. O bigodudo filósofo prenunciava a chegada de tempos medíocres e vulgares.

   “A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Ante a moldura desses tempos de baixeza moral em que vivemos, a atestar que o estágio civilizatório de um povo nem sempre segue o fluxo de eventos na direção da grandeza, urge dar novo sentido à famosa frase de Karl Marx. A história se repete uma, duas, cinco ou mais vezes, e portando novas tragédias.

   Olhe-se ao redor. Um clima de permanente emboscada segue nossos passos. Agressões de todos os tipos nos acompanham. A insegurança nas ruas, as gangues que proliferam em todas as regiões, uma bala perdida em plagas mais violentas, as querelas formadas por pequenos incidentes – um esbarrão nos ônibus superlotados, um palavrão no trânsito contra um motorista impulsivo, a discordância em mera discussão.  Fosse isso apenas, os dias seriam até suportáveis.

   Mas os tempos são bem mais sombrios por abaterem a moral de nossa gente. Oportunistas, carreiristas, perfis lapidados nos laboratórios da ambição desmesurada, constroem cofres nas malhas intestinas da administração pública. Larápios de todos os tamanhos e classes disseminam-se aqui e alhures, corroendo as riquezas da Nação. Locupletam-se em pleno tempo de Lava Jato, capturando modelagens tecnológicas avançadas para sugar os bens do Estado.

   A honradez cede lugar às artimanhas para driblar o império da ordem. Profissionais da política trocam a missão de bem servir à sociedade, ideal aristotélico, por uma profissão bem remunerada. Servir-se em lugar de servir à coletividade – eis o novo arranjo. Muitos trocam sua palavra, seu compromisso, sua índole moral por uma prebenda, um cargo, um posto na estrutura dos governos. 

   Corações e cérebros se entorpecem no exercício de substituir a verdade pela mentira, de arrumar desculpas para explicar a mudança de posição em importantes decisões e abordagens. As circunstâncias determinam o ir e vir das pessoas. A firmeza de propósitos é uma quimera.

   A paisagem se cobre de folhas e galhos secos. Grupos e alas se digladiam em redes sociais com xingamentos, usando até palavras de baixo-calão, fazendo acusações recíprocas, multiplicando fake news, puxando um cabo de guerra imaginário. Debatem propostas? Não. Sobre o tabuleiro vê-se um fórum de ideias?  Não. O ódio racha a sociedade. A bílis escorre pelas artérias. Trata-se de um jogo de soma zero.

   Frios, apáticos, acomodatícios, cegos, milhões não conseguem enxergar os horizontes do amanhã de prosperidade, caso substituíssem a mentira pela verdade, o deboche pelo respeito ao próximo, o oportunismo pela oportunidade de ajudar os carentes, a indignidade pelo zelo, a torpeza pela civilidade.  O que se vê é o pão ensopado na adulação para engordar impostores e hipócritas.

   A injustiça impera, apesar dos aparatos e aparelhos do Judiciário, do Ministério Público e dos sistemas de controle. A linha do espetáculo motiva protagonistas da Operação do Direito, interessados apenas em ascender aos palcos da visibilidade. A hipocrisia dá o tom. A maldade se bifurca na encruzilhada dos malfeitores.  O primeiro germe da perfeição moral se manifesta quando alguém se adianta para praticar o bem, ensinar as coisas certas, admirar as virtudes. Esse germe, convenhamos, tem sido escasso.

   Ao contrário, o país se locupleta de pessoas refratárias a gestos dignos. Grupos de interesseiros navegam nas correntes do pântano. Caçadores de fama, como lacaios, aproveitam o niilismo que se espraia de norte a sul para surfar nas ondas do favorecimento. Resta pinçar o timoneiro Simon Bolivar que, há 170 anos, perorava: “Não há boa fé na América, nem entre os homens nem entre as nações; os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida, um tormento. A única coisa que se pode fazer em nossa América é emigrar”.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato

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Acesse o blog www.observatoriopolitico.org

 

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