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Estudo destaca papel central da música nos ritos de incorporação da Umbanda

Redação 4 de julho de 2018 5 minutes read

Pesquisa também apontou semelhanças entre alguns processos musicoterápicos e o culto umbandista. Na imagem, a Tenda Espírita Vovó Maria Conga de Aruanda, no Rio de Janeiro – Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil via Wikimedia Commons / CC BY 2.0

Somada ao movimento corporal e ao contexto social, música acaba por favorecer a alteração de identidade no ritual umbandista

Ao som dos atabaques e nos movimentos da dança é que “chegam os “santos…as entidades”. Na maioria dos terreiros de Umbanda, as músicas antecedem os ritos de incorporação dos médiuns. “A música e a dança são fundamentais nesse processo, pois facilitam a entrega do médium ao rito”, explica o pesquisador Gregório José Pereira de Queiroz. De formação multidisciplinar, o musicoterapeuta e arquiteto decidiu investigar o ritual da incorporação na Umbanda e o papel da música neste processo a partir de sua própria experiência. “Há uns dez anos me iniciei na Umbanda e sou um praticante”, relata Queiroz.

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Gregório José Pereira de Queiroz, pesquisador do Instituto de Psicologia – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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E foi numa roda de capoeira que a relação música/movimentos chamou a atenção do pesquisador. Após a apresentação de um trabalho sobre esta relação, enquanto musicoterapeuta, Queiroz então decidiu estudar como os pontos – cantos específicos que antecedem a chegada do santo ou da entidade – influenciam na incorporação. “Na Umbanda, um médium pode incorporar um ‘santo’, ou orixá, que é uma divindade africana, ou uma ‘entidade’, que é um ente que já viveu em nosso plano”, descreve.
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A música e a expressão corporal têm muito a ver com o culto umbandista. Há, entre as duas atividades, uma semelhança na forma, mas não nos objetivos.

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Sob a orientação do professor Wellington Zangari, o arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP decidiu empreender seu estudo sobre o tema. Desta vez, no Instituto de Psicologia (IP). Lá, ele desenvolveu a pesquisa Uma visão psicossocial do papel da música na umbanda e na reorganização das id/entidades, apresentada em 2017. E o trabalho gerou o livro O papel da música na umbanda e na reorganização das id/entidades, lançado no próprio ano de 2017.

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Maria da Guia, médium do terreiro Tenda Espírita Vovó Maria Conga de Aruanda – Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil via Wikimedia Commons / CC BY 2.0

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“Deslizamento” de identidades

O pesquisador percebeu semelhanças entre alguns processos musicoterápicos e o culto umbandista. “A música e a expressão corporal têm muito a ver com o culto umbandista. Há, entre as duas atividades, uma semelhança na forma, mas não nos objetivos”, observa. No início, o pesquisador chegou a entrevistar algumas pessoas no intuito de obter informações sobre o processo de incorporação na Umbanda e a influência da música. “Obtive respostas convencionais e que nada acrescentaram. Foi aí que decidi fazer um estudo autoetnográfico, trazendo ao estudo a minha própria experiência”, conta.

De acordo com Queiroz, o ser humano possui diversas identidades e as vive de acordo com suas reações às pressões do meio e às necessidades. “Há uma certa transição entre as identidades. Quando conversamos com o gerente do banco, por exemplo, não o fazemos da mesma forma com que dialogamos com amigos do futebol!”, diz. Segundo ele, passamos automaticamente de “uma identidade a outra”. E há muitos relatos na literatura psicológica de casos em que a pessoa alterou sua identidade e não mais conseguiu retornar, o que é chamado de processo dissociativo. “Me recordo do caso de uma garota que sofreu um trauma e, por conta disso, perdeu sua audição, passando a viver como uma pessoa surda”, conta, lembrando que “a surdez foi uma espécie de alteração de identidade e de fuga do problema causador do trauma”.

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Reunião de pais e mães de santos e praticantes de Umbanda e Candomblé – Fotos: Clara Angeleas / MinC via Wikimedia Commons / CC BY 2.0

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Uma das principais conclusões de Queiroz em sua pesquisa é que a música, somada ao movimento corporal e ao contexto social, acabam por favorecer a alteração de identidade. “A música ajuda ao que denomino ‘deslizamento’ entre as identidades. E na Umbanda, em parte, se constrói uma nova identidade”, revela. Queiroz faz tal afirmação por sua atividade de uma década na umbanda. “Semanalmente, no terreiro umbandista que frequento, as entidades que incorporo prestam atendimento espiritual e aconselham  consulentes”, conta. O pesquisador explica que no culto umbandista, atualmente, boa parte dos médiuns fica consciente durante o processo de incorporação. “Quando minhas entidades recomendam ações e dão aconselhamentos eu vejo tudo o que ocorre, mas é como se uma outra identidade assumisse o controle”, descreve.

Brasileira por excelência

A Umbanda é uma religião brasileira que sintetiza vários elementos das religiões africanas, cristãs e espíritas, porém sem ser definida por eles. Nascida no início do século 20 em Niterói, a partir da manifestação de uma entidade — de um Caboclo — dentro de um centro espírita. Desde o início a Umbanda traz aspectos ligados a movimentos religiosos como o Candomblé, o Catolicismo e o Espiritismo. É considerada uma “religião brasileira por excelência”, com um sincretismo que combina o Catolicismo, a tradição dos orixás africanos e os espíritos de origem indígena.
Queiroz lembra que, na Umbanda, o principal princípio é o da caridade. “Comecei a me dedicar a essa religião aos 50 anos. A Umbanda exige dedicação praticamente integral de nossa vida”, avalia o pesquisador.

 

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