Artigos / Opinião

Proclamação: um ato contínuo

*por Christian Moreira de Souza

A cada ano, no dia 15 de novembro, rememoramos em nosso calendário civil, a proclamação da República no Brasil, que encerrou o tempo dos reis e nobres, e inaugurou o tempo dos políticos e de suas articulações. A monarquia era, à época, responsabilizada por todas as crises que o país atravessava e a república seria vinculada ao progresso, à prosperidade, ao futuro que todos almejavam. Mas, o que seria essa tal República?

Para entendermos a República, partirmos do significado etimológico. República vem do latim: res publica. “coisa pública” “que pertence ao povo”. Portanto, no regime republicano, o aspecto central é o interesse da comunidade, comum a todos, em detrimento dos interesses individuais e dos negócios particulares. Sendo assim, não se afina à monarquia (interesse de um), não se alinha à aristocracia (interesse de alguns), nem mesmo à democracia (interesse do povo). A república volta-se para a finalidade do governo, que é o bem comum.

   No Brasil, a República foi implantada sem a participação, o engajamento ou mesmo a ciência do povo, se evidenciando como uma ação conjugada entre setores do exército e de uma elite em formação, vinculada a setores cafeicultores do Oeste Paulista. Este aspecto presente no alicerce republicano nacional, nos faz compreender por que em tantas vezes da história de nossa nação, sobretudo após a proclamação, o povo e suas necessidades passaram ao largo de alguns governos.

A ressignificação da importância e participação de cada um, e portanto de todos, é fundamental para a plena realização do espírito republicano. Mas, de que forma se constrói uma república efetivamente destinada ao governo do bem comum, e, neste sentido, na perspectiva mais plena do conceito de povo? Gostaria de indicar algumas proclamações necessárias e urgentes aos nossos dias, onde proclamar é “fazer uma declaração pública e solene”.  

Precisamos proclamar o Brasil como um país em processo de desintoxicação das práticas corruptas e corruptoras. Como dizia a canção: “A começar em mim…” Não adianta estendermos o dedo em riste para Brasília e continuarmos com as corrupções nossas de cada dia. O projeto anticorrupção começa na educação dada em casa, aos filhos, fundamentando-se não no discurso, mas na prática.

Precisamos proclamar um tempo de paz. Evidentemente que a violência crescente em nosso país tem muitas origens. No entanto, ficar terceirizando responsabilidades e se manter no imobilismo nada muda. Podemos gerar, incentivar e promover uma cultura de paz. Independentemente do que se tem oferecido, cultura de paz é decidir o que eu vou oferecer ao mundo. Não podemos mudar o mundo todo de uma vez, pois não temos governabilidade, mas podemos sim, ser oásis de paz, onde estivermos, com nossas escolhas, ações e reações.

Precisamos proclamar um tempo de esperança. Os últimos dias de nosso país, por ocasião do pleito eleitoral, deixaram muitas sequelas. A interposição de ideias é um ponto forte da democracia. A animosidade entre as pessoas é sua deformação. Precisamos ter uma esperança proativa. E o que fazer para contribuir para o bem comum? A primeira coisa é exatamente essa: tenhamos esperança.

A crueza do mundo real, tem, por vezes, subtraído de muitos a capacidade de sonhar, de esperar e de se deixar surpreender pelo devir. Proclamemos uma frase dita pelo pastor Martin Luther King, em seu histórico discurso, em Washington, em 1963: “Eu tenho um sonho”. A luta de construção de uma realidade mais humanizada, menos excludente, mais inclusiva, deve ser de todos.

É esta proclamação que precisamos celebrar de forma continuada em nossa nação. Feita sim pelos que assumem funções de governo, mas, principalmente, por todos que constroem de forma silenciosa a realidade que vivenciamos como nação. Uma condição não é excludente a outra. Acompanhemos, cobremos, fiscalizemos os representantes ora eleitos e que tomarão posse no ano vindouro. Que nossa república se destine ao bem comum, ao bem de todos, como deve ser.

*Christian Moreira de Souza é Historiador, Mestre em Ciências da Educação e membro da Comunidade Canção Nova

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