Paraíso do verde? ‘Só que não’, em relação à vegetação natural

O Instituto de Zootecnia (IZ) abriga os últimos fragmentos significativos de vegetação natural em Nova Odessa (SP), que totalizam aproximadamente 44 hectares (ha). “Considerando a extensão territorial do município, não acredito que eles representem mais de 2% de sua área”, informa o botânico Harri Lorenzi, em entrevista à Maestrello Consultoria Linguística, para esta reportagem especial sobre o “Dia Nacional da Mata Atlântica” – 27 de maio.

“Apesar desses fragmentos de Floresta Estacional Semidecidual estarem muito degradados pelo pastoreio de gado bovino, eles ainda contam com uma diversidade vegetal bastante significativa, justificando a sua conservação”, ressalta Lorenzi, que, há dois anos, vem fazendo um levantamento florístico dos remanescentes florestais novaodessenses.

A empresa educacional, que já indicou o IZ como atração para turismo ecológico na cidade, acredita que a necessidade de preservação dessas matas poderá evitar a venda de áreas do instituto de pesquisa – desejo do Governo do Estado de São Paulo.

“A Prefeitura Municipal diz que Nova Odessa é conhecida como ‘Paraíso do Verde’ porque possui 15 árvores para cada habitante e mais de 30 metros quadrados de área verde por morador. No entanto, analisando o inventário de sua vegetação original, conduzido por Lorenzi e a equipe do Plantarum, não temos motivos para comemorar o Dia da Mata Atlântica em nossa cidade”, afirma a diretora executiva da consultoria, Ana Lúcia Maestrello.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, “a Mata Atlântica é formada por um conjunto de formações florestais (Ombrófila Densa, Ombrófila Mista, Estacional Semidecidual, Estacional Decidual e Ombrófila Aberta) e ecossistemas associados, como as restingas, manguezais e campos de altitude, que se estendiam originalmente por aproximadamente 1.300.000 km², em 17 estados brasileiros. Os remanescentes de vegetação nativa encontram-se em diferentes estágios de regeneração e apenas 7% estão bem conservados em fragmentos acima de 100 ha. Mesmo reduzido e muito fragmentado, estima-se que, no bioma, existam aproximadamente 20.000 espécies vegetais (35% das espécies existentes no Brasil), incluindo diversas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. Essa riqueza é maior que a de alguns continentes (17.000 espécies na América do Norte e 12.500 na Europa) e, por isso, a região da Mata Atlântica é altamente prioritária para a conservação da biodiversidade mundial. Em relação à fauna, os levantamentos já realizados indicam que a Mata Atlântica abriga 849 espécies de aves, 370 espécies de anfíbios, 200 espécies de répteis, 270 de mamíferos e cerca de 350 espécies de peixes”.

‘Precisamos reflorestar’

Nos últimos 30 anos, o bioma teve 1.887.000 ha desmatados, o equivalente a 12,4 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Apesar de a maior parte (78%) dessa perda de vegetação ter ocorrido entre 1985 e 2000 e de as taxas estarem em queda desde 2005, sua supressão continua acontecendo, de acordo com a nova edição do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, divulgado na última quarta-feira (25) pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Para a diretora executiva da fundação, Marcia Hirota, o desflorestamento do bioma começou com a descoberta do Brasil. “A história do Brasil é a história da devastação da Mata Atlântica. Cada ciclo de desenvolvimento do país foi um ciclo de destruição da floresta. Hoje é muito menor, mas porque quase não há mais Mata Atlântica, porque grande parte está na mão de particulares, que preservam, e porque temos uma lei que proíbe seu corte. Mas precisamos reflorestar”, diz Marcia.

O atlas, referente ao período de 2014 a 2015, observou que, no ano passado, o bioma perdeu 18.433 ha, taxa 1% maior que a do período anterior, que foi de 18.267 ha. São valores menores que os registrados entre 2011 e 2013 – quando, por dois anos consecutivos, a taxa voltou a crescer -, mas ainda são maiores dos que as perdas ocorridas entre 2008 e 2011, as menores da história do monitoramento.

A cobertura de áreas protegidas de Mata Atlântica avançou expressivamente ao longo dos últimos anos, com a contribuição dos governos federais, estaduais e, mais recentemente, dos governos municipais e iniciativa privada. Porém, a maior parte dos remanescentes de vegetação nativa ainda permanece sem proteção. “Em sete dos 17 estados da Mata Atlântica, a taxa de perda está no nível de desmatamento zero, com menos de 1 km² ou 100 ha de desmatamento. É o caso de São Paulo e Rio de Janeiro”, pontua a responsável pelo trabalho, que indica Minas Gerais – estado com a maior área de floresta / 2,8 milhões de ha -, como líder do ranking, com perda de 7.702 ha (37% a mais que os 5.608 do período 2013-2014) do bioma.

“Se formos fazer uma analogia dessas regiões citadas à importância de termos o IZ também como uma Unidade de Conservação em consonância com a geração de pesquisa científica aqui de Nova Odessa, posso dizer que nossa instituição possui características fundamentais e estratégicas para o desenvolvimento econômico local, para integração entre o rural e o urbano e entre a produção de alimentos e energia com a preservação ambiental, agregando valor ao instituto e prestando serviços socioambientais a uma região extremamente urbanizada, impermeabilizada e poluída, já que as atividades que desenvolvemos aqui podem aumentar o fluxo dos mananciais hídricos, assegurar a fertilidade do solo, oferecer belezas cênicas por meio da sua paisagem, controlar o equilíbrio climático, preservar o patrimônio histórico e cultural imenso, bem como oferecer à população um espaço de formação ecoprofissional, tanto internamente quanto em parceria com a prefeitura através do Projeto de Segurança Hídrica Municipal”, comenta o agrônomo e pesquisador do Instituto de Zootecnia, João José Demarchi, coordenador do Laboratório de Pesquisa, Educação e Comunicação Socioambiental (Lapecs-IZ).

 

 

 

Posted Under