Depois de ano abaixo, produção de carne espera melhor desempenho em 2018

Por Raphael Costa

Turbulento e decepcionante. Esses são algumas das palavras que podem resumir o desempenho da produção de carne em 2017. Afetado por secas e principalmente por escândalos envolvendo os maiores frigoríficos do país, especialistas e um produtor detalharam em entrevistas exclusivas a Agência do Rádio Mais, o que ocorreu neste ano para um desempenho abaixo do que se esperava.

Perspectiva para 2017 era boa

No começo do ano às expectativas para o desempenho do setor eram as melhores possíveis, mas é preciso voltar a 2014 para entender o que motivou essa esperança. De acordo com Thiago Carvalho, pesquisador da área pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, o CEPEA. em 2014 e 2015, o Brasil sofreu com fortes secas nas principais regiões produtoras de gado. Isso causou uma diminuição no rebanho e os preços subissem.

Diante desse cenário, de acordo com o especialista, muitos pecuaristas tiveram que usar a criatividade para não ficarem no prejuízo, assim, começaram os investimentos em genética, manejo sanitário e do pasto, além da nutrição. Isso fez com que os anos de 2014 e 2015 fossem muito lucrativos. No fim de 2016, começo de 2017, as chuvas voltaram à normalidade e os preços voltaram a cair, devido ao aumento da produtividade. Segundo Thiago Carvalho, do CEPEA, a desvalorização começou a ser observada pelo órgão e investidores do setor.

Rafael Linhares, assessor técnico da comissão de nacional de bovinocultura da Confederação de Agricultura e Pecuária, a CNA, confirma que as previsões para 2017 eram as melhores. “No começo de janeiro, nós já tínhamos uma arroba estabelecida por volta de R$ 150. O produtor vislumbrou um ano que seria de muito sucesso, retomada de investimento, de venda valorizada da sua arroba, de seus animais, uma liquidez na entrega bastante favorável. Segmento exportador com boa expectativa, mas a partir de março começou nosso pesadelo.”

Operação Carne Fraca e delação da JBS

Na manhã do dia 17 de março, uma sexta-feira, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca. Após dois anos de investigação, a PF desarticulou um esquema que contava com fiscais agropecuários federais e empresários. Fiscais recebiam propinas para facilitar a produção de alimentos sem a devida fiscalização. Com isso, algumas unidades de empresas importantes do mercado como JBS e a BRF apresentaram irregularidades como a venda de carne fora do prazo de validade.

No entanto, os boatos e as informações mal divulgadas foram crescendo com o passar dos dias criando um impacto muito negativo sobre a qualidade do produto brasileiro. “Quando você tem a Carne Fraca, em um primeiro momento, você coloca em cheque toda a fiscalização e toda a qualidade da carne brasileira. Em um primeiro momento, todo o mercado externo fechou as portas.”, explica Thiago Carvalho da CEPEA, que destacou a importância do Brasil para o mercado externo. “É o maior exportador de carne do mundo.”

 

Isso, segundo Thiago Carvalho, causou uma sobra de carne no mercado interno, e o mercado interno também parou de consumir. O esclarecimento sobre a questão demorou a vir, mas depois de uma explicação da PF, as coisas voltaram ao normal tanto externamente quanto internamente.

Rafael Linhares da CNA disse que o mais afetado com essa polêmica foi o produtor, que viu o preço da arroba cair muito. Antes mesmo da operação, segundo Rafael, a seca prejudicava os produtores com a qualidade do pasto servido aos bois.

João Moreira Melo tem 81 anos e diz que trabalhou a vida inteira com o gado. Ele tem duas unidades criadoras de gado em Arinos, interior de Minas Gerais e revela a decepção com os maus resultados de 2017. “Nós esperávamos um preço melhor, tivemos que vender mais barato esse ano e acabamos vendendo menos.”

No dia 6 de abril, a cotação do boi gordo atingiu preço de cerca de R$ 132, o mais baixo desde o dia em que a operação foi deflagrada. No restante do mês o preço da arroba voltou a subir e se estabilizou em R$ 136 em média.

Porém, a tentativa de estabilidade sofreu um novo golpe no dia 19 de maio, com a divulgação, feita pelo Supremo Tribunal Federal, do conteúdo da delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da maior frigorífico do país.

Joesley gravou uma conversa com o presidente Michel Temer, onde o empresário dizia a Temer que estar comprando o silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, atualmente preso. Temer negou os fatos.

O impacto, segundo Thiago Carvalho do CEPEA, foi mais significativo do que ocorreu na Carne Fraca. “A delação é um momento fora da cadeia. É uma questão política, de corrupção e que foi sim uma pancada muito grande para a pecuária em um geral. Porque você derruba o preço, foi um dos piores preços dos últimos 20 anos para o mês de maio”, explicou.

Queda dos preços após operação e delação

Uma das medidas que ajudou os produtores a não ficarem completamente endividados, segundo Rafael Linhares, foi um aumento do tempo para os produtores conseguirem quitar seus compromissos com os bancos, negociados pela CNA com a instituições bancárias, que atenderam a solicitação.

Rafael e Thiago concordam que o abalo na JBS criou um lado minimamente positivo, pois reaqueceu pequenos e médios frigoríficos, que precisavam atender uma demanda que ficou sem carne com a redução na produção da gigante nacional. “Isso aguça a competitividade”, destacou Linhares.

Regiões com maior produção de carne no país

Expectativas para o fim do ano e 2018

Com uma redução na quantidade de produção de carne, sobraram animais para se abater segundo os especialistas. Rafael Linhares, da CNA, é otimista com relação ao desempenho do setor para o final de 2017. “Nós esperamos para o final do ano uma retomada do consumo com as festividades de final de ano. Uma retomada do abate, da produção de carne e do consumo, fazendo com o que haja uma procura maior pelo animal terminado”, afirmou Linhares.

Thiago Carvalho concorda, mas vê que há coisas pendentes para a produção retomar ao ritmo normal. “O que precisa resolver é toda essa reorganização industrial, ver como ficará a partir do momento que eles forem soltos ou ficarem na cadeia (Irmãos Batista), e se forem definidos novos líderes dentro da própria empresa”, explicou.

Thiago e Rafael destacaram que o ritmo de consumo no mercado interno e as exportações retomaram bons desempenhos, o que reforça a ideia de que o futuro será melhor para o setor.

Para 2018,o produtor João Moreira Melo é esperançoso, assim como no final do ano passado. “A gente tem que ter esperança né? É última que acaba. Mas eu acho que vai melhorar sim. Já começou a chover bem, o pasto melhorou. Vai melhorar.”, desejou João.

Agência do Rádio Mais

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