Caricatura em 3D vence Grande Prêmio do 44º Salão Internacional de Humor de Piracicaba

Escultura de Bruno Hamzagic, artista de Taboão da Serra (SP), que retrata o pintor norte-americano Jackson Pollock, foi escolhida pelo júri de premiação

 

 

A caricatura tridimensional de Bruno Hamzagic, na qual ele retrata o pintor norte-americano Jackson Pollock (1912-1956), um dos nomes mais importantes do expressionismo abstrato, é a vencedora do prêmio Caricatura e do Grande Prêmio Zélio de Ouro, do 44º Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Em cerimônia no Teatro Erotides de Campos, no Engenho Central, em Piracicaba, na tarde deste sábado, 26/08, foram anunciados também os vencedores das categorias Charge, Cartum, Tira, prêmio temático Criança e prêmios Saúde (Unimed), Águas do Mirante e Câmara de Vereadores.

 

O cubano Ángel Boligán Corbo, artista premiado no salão piracicabano, venceu o prêmio Charge; o austríaco Klaus Pitter faturou o prêmio de melhor cartum; Makhmudjon Eshonkulov, do Uzbequistão, teve sua tira escolhida como a melhor desta edição. Já o prêmio temático Criança foi conquistado por Dálcio Machado, do Brasil. O Águas do Mirante é de Raimundo Rucke, o Saúde (Unimed) de Fred Ozanan e o Câmara de Vereadores de André Moura Bethlem, todos do Brasil.

 

O valor total da premiação é R$ 55 mil, divididos nos prêmios de R$ 5.000 nas categorias Cartum, Caricatura, Charge, HQs, prêmio temático Criança, Câmara, Saúde (Unimed), Águas do Mirante e Júri Popular Alceu Marozzi Righetto de R$ 5.000, este que ainda será escolhido por votação eletrônica aberta. Além dos R$ 5.000, o vencedor do Troféu Zélio de Ouro vai receber mais R$ 10 mil.

 

Também foram distribuídas 15 menções honrosas. Os cartunistas que receberam menção em Caricatura são Gilmar de Oliveira Fraga (Brasil), Ali Miraee (Ira?) e João Vaz Carvalho (Portugal); em Cartum, Evandro Alves (Brasil), Mehmet Zeber (Turquia) e Vladan Nikolic (Sérvia); em Charge, Behzad Ghafarizadeh (Canadá), Danilo Scarpa (Brasil) e Mihai Ignat (Romênia); temático Criança, Darko Drljevic (Montenegro), Manuel Arriaga (Espanha) e Santiago Cornejo (Argentina), e, em Tira, Neltair Abreu Santiago (Brasil), Nikola Listes (Croácia) e Rafael Corre?a (Brasil).

 

ANÁLISE – Este ano, o Salão Internacional de Humor de Piracicaba recebeu a inscrição de 2.985 trabalhos de 560 artistas, originários de 57 países. Destes, 410, de 34 países, foram selecionados para a mostra principal, que foi aberta também neste sábado, 26/08, no Armazém 14 do Engenho Central.

 

Os 410 trabalhos foram julgados no sábado, 19/08, por júri composto pelo caricaturista francês Jean Mulatier, os cartunistas Arturo Kemchs (México), Raul Fernando Zuleta (Colômbia) e Fernando Gonsales (Brasil), a pesquisadora em história em quadrinhos e doutora em ciências da comunicação Sônia Luyten, o ex-diretor geral da Pinacoteca de São Paulo e professor da ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), Tadeu Chiarelli, e pela publicitária e comediante do Festival Risadaria, Arianna Nutt.

 

Raul Zuleta conta que a escultura de Jackson Pollock chamou sua atenção desde o início dos trabalhos de julgamento. E, por conta de seu ineditismo, também foi alvo de debates por parte do júri, até se chegar a um consenso. “Ela provocou debates. Minha posição foi de que boa parte das caricaturas dimensionais são digitais. São trabalhadas com Photoshop. Se já se usa a tecnologia digital por que a escultura não pode usar? Outro ponto que defendi foi que, pela primeira vez, em um concurso de nível internacional, se premia uma caricatura tridimensional como grande prêmio. Isso é um grande precedente, que vai influenciar o resto do mundo e fazer com que a caricatura tridimensional possa correr com mais força e ser incluída em outros concursos. Estou completamente seguro disso”, observa.

 

Para Mulatier, fã do humor brasileiro e de Ziraldo, a experiência foi difícil, mas muito prazerosa e cheia de aprendizado. O caricaturista francês, conhecido por usar apenas lápis de cor para realizar seus trabalhos, desta vez se rendeu à tecnologia. “O Grande Prêmio é a prova da melhor qualidade gráfica, mesmo em 3D, mostrada nos desenhos dos cartunistas brasileiros. Não somente é uma boa ideia, esteticamente realizada, mas também traz uma técnica moderna. É uma harmoniosa mistura de qualidade tradicional e de tecnologia moderna”, elogia.

 

O mexicano Arturo Kemchs também se rendeu à originalidade da obra de Hamzagic. “O Grande Prêmio me pareceu muito original. É um trabalho que sai do contexto e creio que se premiou essa originalidade. Acredito que essa determinação dos jurados vai abrir espaço para a arte em 3D em outros concursos do mundo. É um passo distinto aos demais festivais”, ressalta Kemchs.

 

VISIBILIDADE – Hamzagic, já premiado no Salão de Piracicaba, inclusive com O Grande Prêmio, em 2012, com uma caricatura do músico Louis Armstrong, ressalta a importância e a visibilidade que a mostra proporciona aos cartunistas. “Os prêmios em Piracicaba sempre significam muito para mim. O prêmio, em 2012, foi uma emoção indescritível. Esse ano não foi diferente e tem, sim, um significado muito especial. Não somente pelo corpo de jurados, que contava com Jean Mulatier e Fernando Gonzales, mas também pela posição sempre vanguardista do Salão de Humor de Piracicaba, que premia as obras sem distinção de técnica, valorizando o lado mais humano da arte: a expressão de sentimentos e ideias”, disse. Sobre a técnica que trouxe este ano ao Salão, Hamzagic conta que tem experimentado o processo de impressão 3D há algum tempo e que ele está em evolução. “A minha obra é, na verdade, um híbrido entre arte digital e tradicional. A impressão 3D foi apenas um ponto do processo, que começou numa ideia que apareceu na minha cabeça, passou por rascunhos em um skechbook, dias de escultura digital e, depois de impresso tridimensionalmente, recebeu acabamento de lixa, cola, primer, tinta, pincel e palito de churrasco, este último na tentativa, quase blasfêmica, de emular o gestual do ‘dripping painting’, no qual Pollock usava pedaços de pau para projetar a tinta na tela depositada no chão. Eu acredito que outras técnicas virão, assim como vêm sempre. Aproveitando a ocasião do personagem caricaturado, faço minhas as suas palavras: ‘A técnica é apenas um meio de se chegar à expressão de uma ideia’”.

 

Veterano do Salão, Fred Ozanan participa da mostra desde 1985 e já conquistou vários prêmios. Durante 19 anos, período em que classificou seus trabalhos, esteve em Piracicaba para participar da mostra. Só faltou em 2015, quando perdeu seu acervo após a inundação de seu ateliê. Este ano, fortalecido, Fred voltou para receber o prêmio Saúde. “Sempre me mantive muito atento aos fatos que ocorrem no Brasil e a saúde é uma referência necessária para qualquer abordagem social. O desenho em si apresenta um quadro de humor explícito, pode até se dizer clássico, com doses de ingenuidade, mas que no fundo mexe com o senso crítico, nos remete à indignação que nos conduz à reflexão. Esta é a função do humor. Externar a felicidade por este prêmio é indescritível, principalmente, no meu caso em particular, que vinha depressivo o mas que agora fico fortalecido, principalmente porque reconheço na prática que saúde pode não ter remédio, mas o bom humor é capaz de curar qualquer mal’, ressalta.

 

O Salão de Humor é realizado pela Prefeitura de Piracicaba, por meio da Secretaria Municipal da Ação Cultural e Turismo (SemacTur) e CEDHU (Centro Nacional de Documentação, Pesquisa e Divulgação do Humor Gráfico de Piracicaba) e faz parte das comemorações pelos 250 anos de Piracicaba.

 

SERVIÇO – 44º Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Parque Engenho Central, avenida Maurice Allain, 454, Piracicaba. Visitação de até 12/10, às quintas e sextas-feiras, das 9h às 17h. Sábados, domingos e feriados, das 14h às 19h. Programação completa no endereço salaointernacionaldehumor.com.br. Informações: (19) 3403-2620/2623.