ARTIGO – A nova era das distribuidoras de energia 2.0

Por Luís Henrique Ferreira Pinto, vice-presidente de Operações Reguladas da CPFL Energia

 

O setor elétrico vive um momento de intensa transformação. O Acordo Climático de Paris para reduzir as emissões de gás carbônico e as inovações tecnológicas (geração distribuída, armazenamento de energia, redes inteligentes e veículos elétricos) serão duas vertentes que poderão moldar o futuro do mercado e das distribuidoras de energia elétrica, cujo papel será o de consolidar todas as novas tecnologias emergentes. Além de criar um novo valor para o setor, este contexto abrirá novas fronteiras de negócios e exigirá mudanças no comportamento das empresas, reguladores, fornecedores e clientes.

 

Atualmente, as concessionárias atendem a um mercado cativo de consumidores e são remuneradas, principalmente, pelos investimentos feitos em sua rede de distribuição com base nos ativos regulatórios fiscalizados pelas agências de regulação. Até 2030, as recentes inovações irão impactar o negócio tradicional das distribuidoras, ao propiciar maior liberdade aos consumidores e viabilizar a criação de novos modelos de negócios, da prestação de serviços de instalação de painéis fotovoltaicos para milhares de consumidores à criação de aplicativos que permitam aos usuários gerenciar a eficiência energética de aparelhos eletrônicos. Engana-se, porém, quem pensa que as distribuidoras serão figuras obsoletas, assim como se tornou o telefone fixo para as empresas de telecom.

 

Parte mais visível dessa revolução, a internet das coisas chega ao setor elétrico pelas redes inteligentes de energia (smart grid) das distribuidoras, cujos primeiros sistemas estão sendo implementados no Brasil. Sua implementação, cuja velocidade dependerá de ajustes regulatórios como o reconhecimento na estrutura tarifária de que a nova tecnologia é mais cara do que a tradicional, criará um novo paradigma para o setor. Isto possibilitará às concessionárias a ampliação da automação da rede, criando um novo modo de operação, uma melhor de gestão das equipes e do controle das perdas.

 

Os consumidores terão um novo papel. As redes elétricas digitais permitirão a avaliação da eficiência do consumo das residências em tempo real. Haverá tarifas diferenciadas por horário, e o cliente terá a possibilidade de gerenciar o horário de funcionamento dos aparelhos elétricos e aproveitar a energia mais barata ofertada em determinados períodos do dia. Os usuários ainda poderão, com a instalação de placas fotovoltaicas, medidores bidirecionais e a conexão com as redes das distribuidoras, se tornar microgeradores, ampliando as possibilidades de atendimento de suas necessidades energéticas.

 

As elétricas, assim, devem ganhar mais opções de prestação de serviços, como provedora de novos produtos e soluções para clientes residenciais, comerciais e industriais. Assim ampliam o seu horizonte de atuação e também se tornam agentes da transformação pela qual o setor elétrico passará. A capilaridade das redes das distribuidoras e a proximidade com os consumidores poderá acelerar a difusão da geração distribuída de pequeno porte.

 

A expansão da microgeração distribuída poderá reforçar a presença da fonte solar na matriz e motivará novos modelos de negócios. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê que até 2024 perto de 1,2 milhão de unidades consumidoras produzam sua própria energia. Segundo dados da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), a energia solar poderá representar 3% da eletricidade gerada em 2024 ante uma participação incipiente atualmente.

 

Em busca de soluções de menor impacto ambiental, veículos elétricos deverão ganhar as ruas de todo o mundo ao longo dos próximos anos. Projeções iniciais da CPFL Energia apontam que a tecnologia ampliaria o consumo de energia entre 0,6% e 1,6% no Sistema Interligado Nacional em 2030, quando as previsões indicam que a frota desses carros pode alcançar entre cinco milhões a dez milhões de unidades. A mobilidade elétrica beneficiaria o meio ambiente e pode criar novos modelos comerciais, como desenvolvimento de eletropostos para recarga das baterias usadas nos veículos.

 

Outra fronteira são as tecnologias de armazenamento (storage). No mundo, já há mais de 120 GW de potência instalada em uso, com perspectiva de crescimento com o advento e avanço dos sistemas de baterias. Com a inclusão de mais fontes intermitentes na matriz, como usinas eólicas e solares, o tema ganhará relevância no Brasil. Armazenar energia pode assegurar maior flexibilidade temporal para despachar a energia gerada aos centros de consumo, o que pode criar valor para geradores eólicos e fotovoltaicos, e trazer mais previsibilidade na confiabilidade às redes das distribuidoras.

 

O futuro é promissor para as empresas do setor elétrico, que criarão mais valor a partir de novos modelos de negócios a serem criados com as inovações que ganham corpo. Análise do Fórum Econômico Mundial aponta que o valor econômico líquido das transformações no setor elétrico nos próximos dez anos pode superar US$ 3 trilhões. Essas mudanças propiciarão maior liberdade aos consumidores, incentivarão o avanço das energias renováveis e elevarão a eficiência do sistema, motivando novos serviços e abrindo a oportunidade para a criação de novos empregos. E as distribuidoras cumprirão papel central neste processo de articulação e promoção destas novas tecnologias.

 

 

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